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Sem treino e preparo físico, todas pessoas são frágeis!




Se raros são os espaços de lazer destinado aos trabalhadores, pior ainda são para as mulheres. Muitas de nós têm medo de ser assediada, perseguida ou por "má fama" e se limitam ainda mais deles.

Imagem Rio 2016
China e Austrália serão as representantes da Ásia no futebol feminino do Rio 2016 (Foto: Getty Images/Atsushi Tomura)
As coisas estão assim por um histórico que antecede o presente e, ao pensar localmente, temos documentado que "futebol não é esporte para mulheres" e, na ditadura militar, fomos legalmente fomos proibidas de jogar futebol.

Mesmo com a revogação desta lei e os vários direitos humanos formais conquistados após 1988, temos ainda na prática uma cultura segregadora em larga escala.


Passeata dos cem mil
Passeatas contra a Ditadura Militar Foto: Reprodução

Na prática esportiva não é diferente, na escola estadual que estudei haviam duas quadras, uma delas era destinada para os meninos jogarem futebol e a outra as meninas jogavam handebol ou queimada.

Esta separação ainda se faz em vários níveis: futebol de várzea, profissional e amador, pois não se tem estrutura, patrocínio, apoio e jogos regulares, assim as equipes vão desaparecendo.

São raros os times exclusivos feminino e quando há mistos, muitas vezes as mulheres têm que ter uma habilidade e concentração exímia para conseguir participar ativamente da partida, pois ter uma mulher em campo que tem medo ou não joga muito bem, não descontrói nada, pelo contrário, só perpetua a segregação. Então, a auto-cobrança é redobrada por ser ativista e querer jogar.
Não necessariamente precisa pegar leve porque é menina, vejo homens mais frágeis do que muitas garotas que conheço.

Conseguimos ajeitar a bola no peito sim, pois aprendemos também a dominar a bola treinando.

Sem treino e preparo físico, todas pessoas são frágeis!

O futebol feminino profissional é um reflexo do quão marginalizadas ainda estamos. Apesar de existir jogadoras fortes, ágeis e guerreiras estamos inviabilizadas por uma sociedade patriarcal e capitalista que segrega, excluí e favorece uma parcela bem pequena da população...


Perto do dia 08/03/2016 fui convidada por uns camaradas do ABC Celeste Proletária Futebol Operário para escrever algo sobre mulher e futebol. 





Com base em materiais que pesquiso e conversamos no coletivo e time que faço parte Rosanegra Ação Direta e Futebol, escrevi essa matéria. Aproveito para divulgar uma reportagem sobre o tema que saiu na TV Brasil (EBC):



Toda colaboração/comentário/divulgação que venha somar é bem vinda.

Até a próxima,


Soraia Oliveira Costa, mestre em História da Ciência pela UFABC e graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Professora de Sociologia e Filosofia na Educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos no Estado de São Paulo.  Tutora em Educação de Direitos Humanos, UFABC/UAB. Trabalha também com audiovisual desde meados de 2007. Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata da história vila de Paranapiacaba, feito com incentivo do MEC/SESu, UFABC e FSA. Nas horas vagas estuda música, toca acordeon e joga futebol.




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Futebol e cultura



Como atividade da disciplina Identidade e Cultura, os alunos foram convidados a comparecer a um evento cultural e fazer um trabalho de observação de elementos relacionados às reflexões em sala de aula. Os estudantes abaixo, escolheram um jogo de futebol. No país "do futebol", em ano de Copa de Mundo, foi uma escolha acertada. Muitas reflexões podem ser travadas pelas suas ricas observações de quem estava no meio da torcida.





Optamos por comparecer a um jogo do Campeonato Brasileiro de futebol entre São Paulo F.C. e 
Chapecoense S.C. a ser realizado as 18:30 do dia 19/07/2014 no estádio Cícero Pompeu de 
Toledo o MORUMBI. 
Por volta das 6hs nos encontramos na frente do shopping Morumbi, fomos de carro até o estádio 
e ficamos aproximadamente 1 km do estádio (o estádio do Morumbi não tem estacionamento) e 
fizemos esse percurso a pé, tinham muitos torcedores do São Paulo na rua, algumas famílias, 
outros com grupos de amigos ou namoradas e o que surpreendeu foi que a menos de 10 minutos 
pra começar o jogo havia um numero enorme de torcedores ainda comprado ingresso e essa 
pessoas inevitavelmente entrariam com o jogo em andamento, o que não deixa de ser curioso o 
interesse pelo jogo por se tratar de um jogo de meio de tabela sem tanta importância. Chegando ao 
portão de entrada a revista policial, há sempre o risco que algum torcedor mal intencionado por 
algum tipo de arma ou objeto que se torne uma ,agora vou me caminhar até uma catraca eletrônica 
aonde duas funcionarias do clube te desejam um bom jogo e você timidamente agradece, quando 
se entra no corredor a caminho da arquibancada a sensação que se tem e de um pouco de 
claustrofobia , um corredor fechado com pouca iluminação, paredes de concreto com um grande 
fluxo de pessoas e você meio disso sendo empurrado sempre pra frente, a frente uma luz e pronto 
se chegou a arquibancada.

Não é possível descrever o quanto o estádio do Morumbi é imponente, é sempre impressionante 
não importa quantas vezes se vá lá, quantas historias, feitos e glorias aconteceram ali , você 
consegue respirar a historia e sentir que também faz parte dela, imediatamente se conecta com os 
outros torcedores sem perceber e se envolve nesta atmosfera, espera o time subir a campo , ele 
sobe e é um êxtase você entra em contato com uma parte sua mais primitiva, irracional e 
passional. Os segundos que antecedem o ponta pé inicial são de clímax incrível a torcida canta pro 
time, a esperança no ar pela vitória, que esse onze caras nos representem com coragem,
habilidade e força. Começa o jogo milhares de pessoas cantando, uma parte do estádio puxa o 
grito a outra acompanha, se canta alto por 15 minutos e alguns estão tão envolvidos que nem 
prestam atenção no jogo, a intensidade vai diminuindo com o passar do tempo 20, 25, 30, 44
minutos e nada de gol já há uma certa agonia no ar não vai ser fácil hoje, começam a aparecer 
algumas insatisfações com o time mais dois minutos vai, vai não foi. No intervalo se conversa sobre 
o que deve mudar para alcançar a vitória, o time martelou, martelou e nada. Outro diz gente que 
você nem conhece e com quem se conversa por quinze minutos, na verdade não somos 
desconhecidos pelo menos ali, compartilhamos a mesma paixão e as mesmas esperanças. 
Começa o segundo tempo o time vai pra cima, a torcida apoia como no inicio com a mesma paixão, 
como se fosse um recomeço , passa 2,5, 10 minutos nada você olha pro lado as pessoas tem 
esperança, espera minuto 11 o chapecoense faz 1x0.
As pessoas estão atônitas, o que aconteceu? Eles não chegaram nenhuma vez! foi o primeiro 
chute a gol! como pode ter acontecido! silêncio pessoas se olhando nem uma palavra , nem um 
gesto , logo após se começa a ouvir um murmúrio seguido de reclamações mais altas, o Cosmo me 
diz eu não acredito! eu não tenho nada pra dizer, como se explica o inesperado. Os minutos 
seguintes são de apoio e nervosismo um senhor de uns cinquenta anos preocupado com o 
resultado me pergunta quanto tempo ainda resta, faltam 30 ainda eu respondo, começa-se a ouvir 
uma parte da torcida muito descontente, a um misto entre reclamar e apoiar o time e o tempo 
segue 20, 25 minutos o técnico faz mudanças alguns apoiam outros reclamam o telão anuncia 
43.075 sofredores pra uma renda de quase 1 milhão de reais, certamente é o tamanho da folha 
salarial do time da chapecoense, mais quem é que disse que a bola liga, ela não liga pra
faturamento nem tamanho de torcida, lá se vão o minuto 30 e 35 e nada a reclamação é grande, 
xingamentos com cada erro do time , era uma noite pra ser perfeita jogando em casa contra um 
time pequeno, 40 e 45 nada só mais 3 minutos a um certo desespero entre torcida e jogadores que 
tentam correr, cruzar, chutar! acabou! vaias, cara de espanto, decepção alguns não tem força pra 
se quer reclamar e já começam a se virar pra ir pra casa, um silêncio estrondoso na saída, pelos 
corredores e pelo portão não há nada a dizer, nada!

Estamos fora do estádio todos voltando pra casa em silêncio, todos estão em silêncio 
ouvimos no rádio do carro criticas e explicações sobre a derrota tudo parece besteira. 21:30-
chegamos no meu ponto e me despeço, já há alguns torcedores do são paulinos no ponto 
ninguém comenta o jogo. Saímos enfileirados como gado com olhar direcionado ao chão e apenas algumas  conversas não motivadas sobre os pontos falhos do jogo. 
Chegamos no carro, ainda sem acreditar no resultado adverso.


Anderson Souza e Cosmo Lima são estudantes do Bacharelado de Ciências e Humanidades da UFABC.
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Futebol feminino tem (pouco) espaço no cinema e na TV



No que, sem querer, já virou uma série sobre futebol, volto com mais uma coluna dedicada ao tema nesses dias de Copa do Mundo no Brasil.

Primeiro, uma dica de exposição internacional:

Na Alemanha, de 08/06 a 31/08, acontece a exposição “Do outro lado da bola”, com obras relacionadas à copa do Mundo no Brasil criadas por quatro artistas brasileiros que residem no país europeu. São eles Adriana Woll, Monica Rizzolli, José de Quadros e Ronaldo de Carvalho.A exposição está montada na Galerie Monika Beck e pode ser visitada de quarta a sexta-feira, das 16h às 20h, e domingos das 16h às 18h. O endereço é Am Schwedenhof 4, 66424 Homburg/Saar-Schwarzenacker – Alemanha. Outras informações no site www.galerie-monika-beck.de .

Quando recebi esta dica e vi o nome das duas artistas plásticas, comecei a pensar sobre futebol feminino e o pouco espaço dedicado a ele na mídia. Afinal, quantas pessoas sabem quando e onde será realizada a próxima Copa do Mundo desta modalidade, quem são os países classificados e as maiores estrelas de cada seleção?

Se o futebol feminino parece não ter muito prestígio entre grande parte do público adulto, uma das razões pode estar na falta de estímulo recebido pelas meninas, desde a infância, para praticarem o esporte. Mas, pensando sobre o assunto, rapidamente me lembrei de um filme britânico e de uma série que, sem dúvida, devem ter deixado muitas garotas com “fome de gol”.
Imagem retirada do site Omelete. 

O primeiro é “Driblando o Destino” (Bend it like Beckham – 2002), um filme bastante conhecido que conta a história de duas amigas inglesas, uma dela de origem indiana, que jogam futebol juntas e enfrentam muito preconceito da família pra seguirem o sonho de jogar profissionalmente. O filme surpreendeu em bilheteria e recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de 2003 na categoria Melhor Comédia ou Musical, mostrando que a história de duas garotas boas de bola encontrou público em todo o mundo.




Imagem retirada do site DramaFever.
Outra história que, felizmente, foi contada é a das meninas do “Brilhante F. C.”, série brasileira exibida entre 2011 e 2012 na TV Brasil e em 2013 na TV Cultura e no canal Nickelodeon. Rita, Jessy, Formiga, Raquel e Giovana, cinco adolescentes de Santa Rita do Sapucaí, interior de Minas, decidem formar um time de futebol feminino e, como era de se esperar, precisam superar barreiras e preconceito para provar que futebol é, também, “coisa de mulher”.  O cenário do interior mineiro, os desafios da adolescência, as alegrias da amizade, tudo isso é retratado de um jeito divertido e com muita sensibilidade. Os episódios completos podem ser encontrados no Youtube. 


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 Uma dica não relacionada ao futebol:
 De 08/07 a 09/08, acontece no espaço Blau Pojects a exposição “Andrei Thomaz  - Máquina do Tempo”. A curadoria é de Douglas Negrisolli, colaborador da Contemporartes. A exposição pode ser visitada de terça a sábado, de 11h às 19h, na

Rua Fradique Coutinho, 1464, Vila Madalena – São Paulo (SP).


Mônica Bento é jornalista, formada pela Universidade Federal de Viçosa (MG). Em seu trabalho de conclusão de curso estudou a função social das salas de cinema e desenvolveu a reportagem multimídia CineMemória. Pertence a equipe de Comunicação da Contemporartes-Revista de Difusão Cultural.


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Os japoneses e o サッカー

A questão que aqui proponho se torna mais pertinente em época de Copa do Mundo: até que ponto uma seleção nacional de futebol representa, efetivamente, um país e sua gente, em seus aspectos culturais e identitários? Uma representação que vá além das quatro linhas do campo. Digo: é possível assistir a um jogo do Brasil e, observando a maneira como os jogadores se comportam (por exemplo, cantando o hino nacional), antes do jogo e durante ele, percebermos  elementos que representem a nação brasileira? Desde os estereótipos (“Brasil, país do futebol”) até os detalhes - cor dos uniformes, superstições antes da bola rolar, etc. -, essas atitudes nos dão mesmo pistas para compreender um pouquinho do “ser brasileiro”? Isso não só nos serviria, a nós próprios, para identificarmos traços peculiares de nossas facetas brasílicas, mas também como um instrumento auxiliar para os outros compreenderem o modus operandi tupiniquim? Para ser mais direto, a figura de Neymar em quatro tempos - “correndo, driblando” e, possibilidade um, “caindo”, ou possibilidade dois, “marcando” - seriam metáforas do espírito brasileiro?
Desde 2010, quando aqui cheguei, faço essa pergunta aos meus alunos japoneses, apenas mudando o sujeito da questão - ao invés do Brasil, coloco o Japão na jogada. De primeira, eles não compreendem as indagações, pois o futebol, por aqui, ainda é uma grande referência em gestação; já se eu usasse o yakiu  (baisebol) ou kendô (esgrima japonesa), aí a associação seria imediata. Mas após explicar a grande representatividade do esporte bretão para a maioria dos brasileiros (não para todos os brasileiros, como os japoneses imaginam...), ou seja, como um “fenômeno social totalizante” - para alguns críticos, “alienante” - a questão se torna mais clara para os meus jovens alunos, mas não menos complexa.
Lá se vão mais de vinte anos, quando, no início dos anos 90, o futebol efetivamente se profissionalizou e se difundiu no Japão. Uma grande parcela desse sucesso se deveu à vinda de ex-jogadores brasileiros, pioneiros como Alcindo, Dunga, Toninho Cerezo, Pita, entre outros e, principalmente, Ramos e Zico, que se tornaram verdadeiros ícones na terra do sol nascente. O carioca Ruy Ramos chegou a se naturalizar japonês, jogou trinta e duas partidas pela seleção nipônica, protagonizou vários comerciais de TV e é figurinha carimbada quando o assunto é futebol aqui no Japão. Assim, uma das maiores referências para os japoneses, quando falamos em サッカー  (“sakká” do inglês soccer) são os jogadores brasileiros já veteranos, que vieram para o Japão ajudar na transição do futebol amador para o profissional e, é claro, ganhar uma graninha...


O futebol é o esporte que mais cresce em número de adeptos no Japão. A geração nascida nos anos 90, desde cedo acompanha a liga japonesa e as ligas internacionais, além de torcer nas sucessivas participações do Japão em Copas desde 1998. Em geral, os jovens fãs japoneses do サッカー praticam futebol, torcem pelos times e assistem aos jogos frequentemente. Um reflexo disso pode ser visto na opção de alguns dos meus alunos por estudar língua portuguesa na universidade por causa da admiração pelo futebol brasileiro.
Sabendo disso, há quatro anos orientei meus estudantes do terceiro e quarto anos a trabalharem em duplas, um rapaz e uma garota, em um projeto de dois meses, cujo título era “como o futebol define uma nação?”. Eles deveriam assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2010, escolher um time, além do Japão, e buscar aspectos singulares de cada equipe escolhida, como por exemplo: biotipo dos jogadores, cortes de cabelo, cores das camisas, movimentação em campo, comemoração de  um gol ou da vitória, decepção pela derrota, relação entre o jogo individual e o coletivo, enfim uma série de detalhes que, em conjunto, poderiam auxiliar na compreensão do futebol como o espelho da sociocultura de um país.
O produto final foi um ensaio de duas páginas, em que as duplas deveriam apresentar oralmente, para os colegas, suas observações e reflexões acerca da questão proposta. As duas seleções escolhidas na época, além do Japão, foram a da Espanha e a do Brasil, três times com formas diferentes de jogar. A partir dessa constatação, os alunos apresentaram seus pontos de vista quanto a essas “diferenças” serem também um reflexo do modo de vida nos três países. No caso específico japonês, a maioria das respostas/reflexões foi afirmativa: “Sim, nós japoneses jogamos futebol como vivemos. Ou seja, entre nós o coletivo é mais importante do que os interesses individuais, a disciplina tática e, além disso, o respeito pelo treinador e a confiança nas suas orientações (o valor da hierarquia) são referências importantes”.
Perguntei, então, qual seria a diferença entre o time do Japão e os outros dois, no campo e na vida fora dele... Após quase um minuto de silêncio, alguns alunos se entreolharam, e um rapaz que havia feito intercâmbio no Brasil (Unicamp) por quase um ano, respondeu com um sorriso: “A malandragem”... Ao que repliquei, malandramente: ”Você quer dizer criatividade?”. E ele: “Talvez...mas meus amigos brasileiros diziam que eu teria de ser um japonês malandro para conseguir jogar bem futebol...”. “Ok...Ok...”, respondi e emendei “E você está praticando esse conselho dos seus amigos brasileiros?”. Ele riu e, de maneira bem japonesa (i.e. com uma sinceridade que às vezes beira a ingenuidade), respondeu: “Eu tento, no treino, no jogo, mas meus colegas não entendem... Eu peço pra eles serem mais felizes (sic) jogando, um pouco mais relaxados e confiantes em si próprios, mas é difícil...”. E assim essa aula acabou.
Na outra semana, antes de uma nova aula, fui dar uma espiada no treino de futebol dos rapazes. Era a primeira vez que via os alunos do time da universidade treinando desde o início – já os vira, só de passagem, praticando, mas nunca lhes dera muita atenção. Dessa vez, porém, assisti a uns bons cinquenta minutos da prática. Um detalhe: o Japão havia acabado de ser eliminado da copa de 2010 pelo Paraguai, na disputa de pênaltis. Naquela manhã, os alunos pareciam meio cabisbaixos, mas mantinham a mesma rotina de sempre, silenciosa no início. Cada um sabia exatamente o que deveria fazer, e o grupo estava completo: vinte e dois jogadores, mais três garotas de “suporte” (i.e. encarregadas desde carregar água e isotônicos até fazer o papel de gandula...). Não havia treinador, mas um líder – geralmente o próprio capitão do time –, que, após o aquecimento, deu orientações ao grupo, minutos antes  da prática com bola. Tudo muito organizado, embora um pouco monótono, mecânico, repetitivo. Sem gritos, risadas, broncas, treino puro e simples na sua mais objetiva concepção: praticar para aperfeiçoar as habilidades futebolísticas em grupo, ou seja, jogadas individuais, pouquíssimas...


Ah! O meu aluno da “malandragem” mencionada dois parágrafos atrás estava lá, com sua camisa azul-marinho da marca brasileira Athleta, estampada com “Café do Brasil”. Ele jogava de meia-direita, ou seja, como um dos homens de criação, posição na qual a condição de “malandro” futebolístico é essencial. Vi-o correr, fazer bons passes, gritar uma ou duas vezes com os colegas de time, mas, aos meus olhos brasileiros, a “ginga malandra” não deu as caras no treino, que se limitou a exibir um futebol correto, dinâmico, mas repetitivo, pouco criativo e silencioso. Dois golzinhos para o time titular.
No outro dia, perguntei ao meu aluno como havia sido, para ele, aquele treino, e ele respondeu que tinha sido ótimo, que o escrete se esforçara muito, e ele pudera usar “um pouco da malandragem em campo”. Pensei comigo, mas sem proferir palavra: “Será que assisti ao treino errado?”. Talvez naquele dia não tivesse havido espaço para a malandragem, ou será que meu olhar de brasileiro era incapaz de enxergar a “malandragem” nipônica? Enigmas do futebol...

  Todas imagens publicadas na coluna possuem direitos autorais Copyright ©2014AkitiDezem



Links interessantes:
http://www.youtube.com/watch?v=li5UFwkt6d0

Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).







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Futebol e cinema




Depois de algumas colunas “ausentes”, o Drops volta a dar as caras na Contemporartes.
Uma breve explicação: mudei de casa e, em função disso, fiquei quase dois meses aguardando a instalação da internet. Foi uma novela que demorou a se desenrolar, mas a abstinência forçada finalmente acabou.
Na última coluna reproduzi um texto que escrevi, em 2011, sobre violência e futebol. Hoje volto ao tema futebol, aproveitando a Copa do Mundo (que, depois de muitas polêmicas, questionamentos e receios, está acontecendo), para trazer duas dicas de filmes que tratam do esporte e de outros aspectos que o rodeiam.

“Rudo e Cursi” (Rudo y Cursi) é um filme mexicano de 2008 que traz os amigos Diego Luna e Gael García Bernal como dois irmãos que vivem junto com a família na zona rural do México, onde trabalham em uma plantação de bananas e, no pouco tempo livre, jogam futebol no maltratado campo das redondezas, Tato (Gael García Bernal) como atacante e Beto (Diego Luna) como goleiro. Um dia, Tato é “descoberto” por um olheiro e recebe uma proposta para jogar em um time da capital, o que acaba transformando a vida de toda a família, mas não da maneira como eles esperavam.
A história de jovens de famílias pobres que sonham em “resolver a vida” através do futebol não é exclusividade brasileira e se transforma em um enredo divertido e atriste, na mesma medida, nas mãos do roteirista e diretor Carlos Cuarón. Estão lá as “marias-chuteira”, a corrupção no futebol, os “perigos” trazidos pelo dinheiro e pela fama. A realização de um sonho nem sempre traz felicidade duradoura e isso fica bem claro na história dos dois irmãos.


“Linha dePasse” também é um filme de 2008 que fala sobre família e sobre futebol.  O longa foi escrito por Bráulio Mantovani, George Moura, Walter Salles e Daniela Thomas, dirigido pelos dois últimos, e deu o prêmio de melhor atriz a Sandra Corveloni no Festival de Cannes. A história desenrola-se na periferia de São Paulo onde uma mãe e quatro irmãos vivem entre o companheirismo e o desentendimento. O futebol não está no centro da trama, como acontece em “Rudo e Cursi”, mas é pano de fundo e motivador de diversas ações que deixam claro a presença marcante do esporte na vida e nos sonhos de muitos jovens.  




A Copa do Mundo é palco de partidas emocionantes, de demonstrações de orgulho e paixão por parte de torcidas. Os dois filmes ajudam a lembrar que o futebol faz surgir e alimenta sonhos em meninos e meninas de, um dia, também serem protagonistas dessa festa. 


Mônica Bento é jornalista, formada pela Universidade Federal de Viçosa (MG). Em seu trabalho de conclusão de curso estudou a função social das salas de cinema e desenvolveu a reportagem multimídia CineMemória. Pertence a equipe de Comunicação da Contemporartes-Revista de Difusão Cultural.
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Saca: Arte para Resistência e Copa Rebelde dos Movimentos Sociais




Na Cidade de Exceção, a regra é o lucro e a exceção são os direitos da população.

                  "Como foi muito bem apontado pelo Deputado Estadual carioca, Romário, “A FIFA é um Estado mais soberano do que o Estado brasileiro, dentro do próprio território brasileiro”. Essa declaração é mais fácil de ser entendida se partirmos do conceito de Cidade de Exceção.
                  A Cidade de Exceção é um termo que traduz uma série de medidas excepcionais para um fim específico de mercado. Para realizar uma operação de interesse de grupos empresariais e enriquecimento de membros do poder público, são criados novos estatutos, novas leis, que simplesmente ignoram a Constituição, Direitos civis e outros códigos que foram criados para garantir direitos ao cidadão brasileiro. Em outras palavras, são Leis de Exceção, que interferem na organização e utilização do espaço público das cidades. Por isso o termo Cidade de Exceção: as cidades que receberão a Copa do Mundo de 2014, terão de ABANDONAR Direitos Civis, Constitucionais para dar lugar á um novo código de leis que beneficiam apenas grandes empresas multinacionais parceiras da FIFA, e a própria FIFA, é claro.              
Os exemplos são muitos: terrenos de interesse social transferidos para a utilização de obras de infraestrutura da copa (estacionamentos, boulevards de multinacionais, parques e áreas de lazer de alto padrão para atender turistas, etc.); milhares de famílias desalojadas violentamente em nome da construção de estádios de futebol; proibição de expressões culturais legítimas brasileiras em nome do interesse de empresas de alimentação ligadas á FIFA; Enfim, seria tedioso listar aqui todas as injustiças causadas desde que o Brasil foi escolhido como sede do megaevento[1].
                  Fica claro então á serviço de quem os governantes estão agindo, sejam eles de qualquer partido: mandam a polícia fechar o cerco nas periferias e favelas, com as UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora) para garantir a repressão daqueles que se levantarem contra a demolição de suas casas, enquanto doa estes terrenos para empresários ricos da construção civil associados á FIFA; abre as portas ás empresas de alimentos do estrangeiro enquanto manda a polícia reprimir trabalhadores ambulantes; reprime, prende e criminaliza os lutadores que corajosamente se enfrentam contra o grande desaforo que a Copa trará para a maioria dos brasileiros."




[1] Para ver em detalhes os impactos gerados pela preparação da Copa no Brasil, ver “Dossiê da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa” (disponível em: http://comitepopulario.files.wordpress.com/2011/12/dossie_violacoes_copa_completo.pdf)

Fonte:
Coletivo ABECEdário - Tema: Copa Pra Quem?

Terá um evento político-cultural no dia 26.04 na Sacadura Cabral, periferia de Santo André-SP para proporcionar mais reflexão e debate a respeito da atual conjuntura.

Além das atividades, aproveitarei momento também para descontrair e disponibilizar parte da pesquisa musical de Rap e Funk Batidão, vulgo Proibidão. Contaremos também com um MC, que elaborou sete letras de sons para o dia e no dia farei a base sonora para ele.




Para melhor situar os interessados que ainda não conhecem a Sacadura Cabral, compartilhamos um panorama básico elaborado a partir de fontes orais

"A Saca e a palmares foram ocupadas mediante a proximidade do terreno com as indústrias da região do ABC, a construção do bairro foi feita sem planejamento e permaneceu dessa forma nas décadas de 1970, 1980, quando alguns grupos de moradores, o MDDF (Movimento pelo Direito dos Favelados), e grupos da igreja católica que lutavam por moradia, Cebs, pastoral operária e etc, iniciaram um processo de luta no ABC. No fim da década de 1980, várias favelas do ABC lutavam pela urbanização e saneamento básico das áreas ocupadas. Foi na década de 1990 depois de várias manifestações, passeata, produção de documentos (vídeos, fotos, relatos, gravações, escritos), treta com a prefeitura e etc, que no mandato do prefeito Celso Daniel do PT, lançou um projeto de urbanização pras favelas do ABC, algumas famílias foram para prédios de habitação, urbanizou boa parte da favela, alguns moradores tem escritura das casas, mas a favela já cresceu de lá pra cá e algumas áreas ainda são bem precárias. 

Hoje ainda existe atuação esporádica do MDDF, organização mínima entre os moradores, centro comunitário. Mas a maioria da população é grata incondicionalmente ao PT  e ao Celso Daniel e perdem a instiga pra luta."



Esperamos vocês para somar conosco por lá!

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Copa Rebelde dos Movimentos Sociais

Neste final de semana ocorreu a segunda Copa Rebelde dos Movimentos Sociais na frente da estação ferroviária Julio Prestes, em São Paulo. O local que estava ocioso devido os movimentos do projeto Nova Luz e, segundo organizadores do torneio, recentemente, o governo do Estado anunciou a desistência da construção da obra. 

O evento foi organizado pelo Comitê Popular da Copa de São Paulo, junto de movimentos sociais e coletivos parceiros, de forma horizontal. Uma das propostas deste torneio é ser alternativo ao megaevento gerido pela FIFA, é um ato político feito e apropriado pelo povo com diversas atividades culturais gratuitas e aberta: capoeira, espaços para as crianças, DJ's, MC's, teatro... 




É importante ressaltar que a própria população do entorno colocou dois pares de traves no espaço para fazer o uso popular do espaço, montamos apenas o terceiro campo para o uso livre enquanto ambas quadras eram utilizadas para o torneio. 



Foto de Sérgio Silva
Fonte: http://coparebelde.wordpress.com/
No campo eram cinco jogadores em linha e um no gol de cada time. Os jogos não tiveram juiz, mas houve arbítrio com consciência, não sendo tolerado injustiças e no caso de alguma penalidade, os próprios jogadores e torcida paravam o jogo. Se persistisse alguma agressão, dependendo da gravidade era designado alguém para ser juiz ou os responsáveis pela confusão eram retirados do torneio.


No dia 15/12/2013 teve a I Copa Rebelde dos Movimentos Sociais




E nos dias 12 e 13.04.14, a segunda edição da Copa Rebelde dos Movimentos Sociais


Se vos interessar ter outras informações, segue algumas reportagens:


http://www.tvt.org.br/watch.php?id=16196&category=208


Confiram os álbuns com as fotos do torneio:





Outras informações em:  

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência (UFABC), bacharel e licenciada em Ciências Sociais (CUFSA/2009). Pesquisadora que utiliza de recursos audiovisuais, da fotografia e das oralidades para fazer análises do cotidiano, da transformação sensível, do cenário urbano, da natureza, do trabalho, dos transportes, do comportamento, da cultura e das manifestações artísticas. Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata sobre a vila de Paranapiacaba.
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