A FOTOGRAFIA E OS ESPAÇOS DE REPRESENTAÇÃO


A coluna Incontros traz o depoimento e algumas imagens do fotógrafo Marcus SantAnna, que não é fotógrafo profissional, mas que faz do exercício imagético, mais do que uma experiência estética, uma busca pela compreensão da ocupação dos espaços urbanos para além do seu significado meramente físico:

Comecei a fotografar em 1998, depois que meu avô me deu de presente de aniversário uma Zenit 11, soviética. Dias antes, ele me viu namorando aquela máquina pela vitrine da loja. Na verdade, não tinha a menor intenção em aprender a fotografar. Era a câmera que me chamava a atenção, com aquele tamanho todo e um painel cinza quadriculado que depois me disseram ser o "fotômetro de selênio"!

No início achei um pouco complicado, era difícil revelar e aparecer alguma imagem visível, então desanimei. Só depois de iniciar o curso de Arquitetura (UFV, 2000), comecei a ter interesse em aprender os fundamentos da fotografia. Em pouco tempo já estava usando uma Canon digital, que me serviu, acima de tudo, para compreender o quanto era mais prazeroso, para mim, a fotografia analógica.

Como não sou fotógrafo profissional e não tenho uma formação tão específica no campo das artes, fico sempre com a impressão que ainda estou aprendendo. Tudo ainda é muito experimental e mesmo que atualmente eu não esteja mais preocupado com os cânones da "boa fotografia", muitas vezes ainda anoto no papel a abertura e velocidade! No meu caso, utilizo equipamento de baixa qualidade, como uma Lomo Smena8M, isso acaba sendo fundamental. Dominar uma câmera dessas, que é um equipamento "imprevisível", é sempre um desafio. Isso pode parecer contraditório, mas mesmo não me preocupando muito com a "regra dos terços", não sou do tipo empolgado com lomografia(1): Don't think, just shoot... não dá.

Filme slide é caro e difícil de encontrar! Me divirto até mesmo com câmeras melhores. Uso muito também uma Olympus XA, XA2 e uma Pen, que são subcompactas consagradas e mesmo assim nunca sei como ficaram as imagens. Quantas sobreposições? Quantos vinhetas? Quantas películas queimadas? Esses defeitos são surpreendentemente prazerosos. Fico ansioso quando vou ao laboratório buscar as revelações, muitas vezes em processo cruzado com slides vencidos. Eu mesmo faço o scan das fotos e só uso photoshop para ajuste do tamanho. Dispenso qualquer tipo de pós-processamento. Por isso ainda faz sentido fazer anotações quando se quer alto contraste e saturação. Acho que é essa falta de instantaneidade que me faz gostar de fotografia. É meu momento de "tempo lento", como diria Milton Santos!

Mais que um exercício estético, fotografar pra mim é uma forma pessoal de experimentar o espaço, e assim, acabo produzindo uma leitura pessoal onde esse ato fotográfico se confunde com minhas preocupações acadêmicas.

Olhar a cidade, a rede de interesses e relações, a vida ou a falta dela na paisagem urbana tem sido minha principal temática desde a graduação. Isso se intensificou muito depois que me mudei para Belo Horizonte, onde fui fazer meu mestrado na área de Geografia Humana, em 2006. Ainda hoje, continuo com as mesmas preocupações, de ultrapassar a barreira da espacialidade física, e poder captar as relações sociais que subsistem no espaço. Para ser mais específico, me preocupo com os aspectos da produção do espaço que tem lugar no físico, no concreto, os chamados "espaços de representação", e que vão ser definidos por várias categorias: lugares, territórios, espaço diferencial, territórios de subjetivação, espaços liminares...enfim, são eventos, definidos pela forma de uso e apropriação de uma determinada espacialidade. E quando me refiro a usos, não há como não registrar seus "usadores". Isso não exclui o seu oposto, os não-lugares e os "usuários de espaço". (M.S.)

P.S.:
(1) A Lomografia é um fenômeno fotográfico que é produzido por uma câmera automática, de alta sensibilidade, capaz de registrar cor e movimento sem necessidade de flash e sem deformação. O processo consiste no recebimento contínuo de luz que é feito através do sistema de exposição automático, que chega a durar 30 segundos. Outro efeito, dependendo do modelo e da lente, é o olho de peixe, no qual a foto fica com uma moldura circular. O nome é uma referência ao modelo LOMO LC-A, uma câmera compacta que começou a ser produzida a partir de 1980.
Atualmente, as câmeras LOMO são objetos de culto. Originaram uma comunidade internacional de seguidores, a Sociedade Lomográfica Internacional. A sua prática é considerada um modo de vida, e os lomógrafos convivem com um conjunto de dez regras básicas:
  1. Leva a tua Lomo onde você for.
  2. Fotografe a qualquer hora do dia ou da noite.
  3. A Lomografia não interfere na sua vida, ela é parte dela.
  4. Aproxima-te o mais possível do objeto a ser fotografado.
  5. Não pense.
  6. Seja rápido.
  7. Você não precisa saber antes o que fotografou.
  8. Nem depois.
  9. Não fotografe com os olhos.
  10. Não se preocupe com as regras.
(Fonte: Wikipédia)

Legendas:
Foto 1- “Sem Título”
Foto 2- “Não-Lugares”
Foto 3- “Usadores”
Foto 4- “Entre Lugares


Izabel Liviski, Mestre em Sociologia na linha de Imagem e Conhecimento pela UFPR e consultora da Contemporâneos, escreve quinzenalmente às 5ªs. no ContemporARTES.
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Mão pesada (Cícero Barbosa)


Vem ver! Vem ver! Vem ver! Gritou ela agitando os braços, demonstrando sem disfarçar sua expectativa misturada com empolgação e felicidade. Havia chegado do colégio e desabado com minha mochila no sofá. Nem a tirei e já peguei o controle remoto da televisão para ver o programa esportivo que deveria estar na metade ou quase acabando. Minha irmã entrou na frente da T.V. e disse: nasceu!

Como assim?, eu disse. E você nem me chamou! Fui correndo até a caixa onde a Tinha (nome da gata vira-lata) dormia, mas estava vazia. Que mentirosa, como ela pode brincar com uma coisa dessas. Não, disse ela, ela deu cria no seu armário. Como assim? Como? Veja. Eu vi. Não são lindos? É. Eram dois gatinhos mais a mãe no maior sossego dormindo nas minhas blusas de lã. Acho que ainda ela vai partir mais dois. E pariu.

Tentei algumas vezes levar os gatinhos e a mãe para a caixa de papelão, mas ela insistia em levá-los de volta para o meu armário. Tirei as minhas blusas de lã e as substitui por um velho cobertor. Nasceram quatro filhotes: Tinho, quase todo preto; Mirinho; quase todo branco; Mirinha, malhada como a mãe; e Tchuby, todo tigrado em cinza.

Num domingo de manhã acordei com umas risadas. Eram minha irmã que trouxe umas amigas para ver a cria da Tinha. Só que me deixou com uma baita vergonha, pois eu dormia sempre de cueca e como mexo muito durante a noite, quando elas chegaram não tinha coberta nenhuma cobrindo minha indumentária estampada com algum super-herói.

Ainda bem que depois de crescidos e bagunceiros, convenci a família de gatos a se mudar para a caixa de papelão. Os filhotes corriam pra lá e pra cá. Se agarravam. Pulavam em cima da mãe. Escalavam a cortina. Desfiavam o estofado do sofá. Provocavam uma anarquia e incitavam a desordem por onde passavam. E todos adoravam eles.

Num desses corre-corre o cinza tigrado ao ir brincar na rua, foi justamente se esconder na roda de pneu do carro do meu tio e foi esmagado. Fiquei sabendo na hora que aconteceu, mas minha mãe já havia providenciado uma caixa de sapato para enterrá-lo e em torno dele já estavam voltas e voltas de barbantes.

Os meses se passam, os filhotes crescem. Quando chegaram até o telhado se sentiram mais livres e seguiram seus caminhos. Menos Tinha. Que continuava por ali esquentando nossos pés no inverno.

Vem ver! Vem ver! Vem ver! Gritou minha irmã agitando os braços, demonstrando sem disfarçar sua angustia misturada com decepção e tristeza. Havia chegado do colégio e desabado com minha mochila no sofá. Nem a tirei e já peguei o controle remoto da televisão para ver o programa esportivo que deveria estar na metade ou quase acabando. Minha irmã entrou na frente da T.V. e disse: ela vai morrer!

Sai correndo e segui o pequeno e estreito rastro de sangue que dava até a caixa de papelão forrada com o mesmo velho cobertor. Lá Tinha estava toda aberta, metade de seu pequeno corpo estava irreconhecível. Havia sido pega por um cachorro da vizinhança. Em questão de minutos era iria morrer, segundos, morreu.

Minha irmã estava inconsolável: gritava, chorava e andava de um lado para o outro. Eu estava parado: minhas mãos num momento esmagavam meus lábio, noutro iam até a cabeça. E numa dessas indas e vindas de incertezas e indecisões que decidi: vou me vingar.

Sai à rua e vi a cadela na vizinha que morava em frente. O pelo meio bege estava avermelhado. Não tive duvidas, apanhei um pedregulho que vi na rua, um pouco maior do que minha mão e fui à caça. Mas quando cheguei em frente da cachorra, não tive coragem de atacar a pedra, que caiu da minha mão. O barulho do paralelepípedo rolando fez a dona da cadela – que estava limpando o quintal – sair à rua para chamá-la para entrar. Eu em seguida, sem saber o que fazer e muito menos explicar tudo aquilo, fui também para a minha casa.


Cícero F. Barbosa Jr., mestrando em História pela PUC/SP, músico e artista, escreve às quartas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.


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2010!!!




...que tudo mais se transforme em poesia, que aquele que respira, come e fala resignifique-se. Que as palavras movam montanhas e movimentem corpos dançantes. Que música, acompanhe um bom bate-papo no Contemporartes!

Gostaria de começar pedindo desculpas à pessoas como minha mãe que me perguntam semanalmente quando sairá minha próxima coluna.
Em seguida peço que se lembrem da minha primeira coluna, publicada no dia 8 de agosto de 2009, em que me apresentei e afirmei que você leitor estaria em contato com o “mais próximo do que eu possa realmente ser” ao ler meus devaneios.
Ciente deste dolorido e saboroso processo de entrega a cada sílaba parida, comecei o ano covardemente, repleta de promessas de resignificação, mudanças, mais desejos e mais sonhos, e contraditoriamente me deixei levar por um dos medos que me cercam e que durante estes meses passados passei a sofrer e assumo agora publicamente portá-lo. [rs]
Pois é, iniciei o ano com medo de escrever, escrevi com muito sacrifício uma mensagem de ano novo para os mais próximos e depois travei, fugi até da agenda, do diário não passei nem perto. Em fevereiro quando sai quase que fugida de tão de repente de meu estado natal (adotivo), Minas Gerais, não só fugi das possibilidades de expressão escrita, como fiz o máximo para evitar momentos de intensa reflexão, mesmo aquelas constantes particulares inaudíveis que me perseguem a cada respirar.
E assim, peço que entendam, não tive intenção de abandoná-los, estava fugindo do “eu” que grita, que implora, que em desespero espera com fé que seus versos, estrofes, parágrafos, passos, movimentos, notas, solfejos, resolvam ou ao menos amenizem a dor do ser humano insatisfeito e desconhecido de si mesmo que sobre-vive neste universo.
Assim, me acovardei, mergulhei em uma alucinação que questionava a função dos meus versos, dos meus parágrafos, dos meus passos, e das minhas vocalizações, passei por uma dúvida artístico-criativa, um questionamento, confesso que ainda estou em crise e espero poder me tranqüilizar contando alguns dos meus pensares que ocupam esse meu dia-a-dia na engarrafada metrópole.
Pois bem, essa mudança para São Paulo, poluída, caótica, repleta de miseráveis acometidos pelas mais diversas carências, que se estendem desde falta de felicidade, de saúde, de dinheiro até falta de arte. Além de subir minha pressão arterial tem me proporcionado reciclagem artístico-cultural e mais desespero em conseguir um dia atingir o status de Arte em minhas obras e poder enfim carregar meus braços de armas maquiadas de Dança, Canção e Artigo e entrar em combate contra estes e outros absurdos.
2010, ano de mudanças, enfrentando os medos, enfrento agora a responsabilidade de escrever quinzenalmente para o Bar Contemporartes, e já agradeço publicamente esta oportunidade de conversar com vocês neste clima “happy hour”.
Sendo assim, desejo que me permitam nestes ensaios de 2010, apresentar-lhes o que tenho visto de bom pela capital como a Virada Cultural, o Bando de Teatro Olodum, os SESC´s, o Figuras da Dança, mostrar também o que tem me apavorado como o trânsito, a solidão, a paisagem cinza, explicitar o que tem me inspirado, como a fome, a miséria, a loucura dos que fizeram das ruas a sua morada, as constantes instalações humanas espontâneas, e muito mais.
Pretendo escrever com este olhar de pretensão artística sobre tudo que São Paulo tem me gritado calada ao pé do meu ouvido a cada momento desesperador em que fico parada feito formiga a contemplar sua imensidão, imensidão estas que pode inspirar e se transformar em obra e talvez em Arte.

Atenciosamente,
Aline Serzedello Vilaça


Ahh! Dica do mês: Série Conexão Latina _ cantora Amelita Baltar e Ballet Stagium reinterpretam PIAZZOLLA. Onde? Memorial da América Latina, Auditório Simon Bolívar. Quando? 25 de junho, 21h.
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Quatro Poetas Virtuais?


UMA SALA DE POESIA VIRTUAL
por Altair de Oliveira.


Com a chegada da internet, antes que os sites particulares e os blogs se popularizassem, iniciou-se uma grande corrida de renomados provedores (UOL, BOL, IG, Terra, hotmail, yahoo, etc) em busca de captar o interesse dos internautas "recém-formados". Na época, além da notícias da hora e dos endereços de correspondência eletrônicos (emails), um dos principais pratos servidos nos sites destes provedores era a sala de "chat" (bate-papo). Inicialmente a divisão das salas de pate-papo por temas, fazia com que as conversações fluissem, pois permitia que reunissem alí as pessoas com interesses e assuntos afins.

O provedor "Terra" manteve por longo tempo salas de chat destinadas aos amantes das artes; alí temas como música, cinema, teatro e literatura tinha suas próprias salas.
O tema "literatura" era dividido em "poesia" e em literatura, propriamente dita, neste último reuniam-se os amantes da prosa. Tanto na sala de prosa como na sala de versos era possível postar textos ou fragmentos de textos, opinar e participar de discussões sobre os mesmos, ou simplesmente prosear.

Apesar de vários frequentadores destas salas serem autores de prosa e de poesia, ou simplesmente serem apreciadores de ambas as artes, os 2 grupos pareciam não se darem muito bem entre si. Não raro observava-se atritos entre participantes das 2 salas, principalmente quando algum desavisado postava poema na sala de prosa, ou vice-versa. Mas quem frequenta sala de chat sabe que estes atritos são comuns neste ambiente de chat, no caso da sala de "poesia" do Terra, estes atritos acabaram por desvirtuar o encontro de poesia virtual que acontecia lá e o provedor optou então por desativá-la.


UM GRUPO DE "POETAS VIRTUAIS"

Por algum tempo eu participei do chamado bons-tempos da sala de literatura e também da sala de poesia do Terra, e em ambas fiz amigos e inimigos. Estes últimos, movido pelo bomocismo, eu os esqueci. Na sala de poesia eu travei amizade com um grupo de poetas bastante ativos que denominava-se "poetas virtuais".

O grupo de "poetas virtuais" era formado por poetas que se conheceram na internet e que decidiram, em nome da poesia, reunir-se em saraus para celebrá-la. Quando os conheci, eles já haviam feito sauraus de poesia em cidades como Porto Alegre, São Paulo e Brasília e já haviam editado uma coletânea com trabalho dos participantes mais ativos. O grupo veio a promover estes saraus não virtuais dos "poetas virtuais" também em outras várias cidades como Curitiba e Florianópolis, e também publicou novas antologias. Pude então participar com eles, declamando meus poeminhas, nos saraus de poesia de São Paulo e Curitiba.

Do livro "Antologia de Poetas Virtuais de 2005" é que extraí os poemas destas 4 poetas (as gauchas Hanna Luz e Waleska Testa, e as paulistas Edna Libera e Rosí Finco) que apresentaremos a seguir. Pretendemos oportunadamente entrevistar alguns dos principais componentes deste grupo para que possam nos falar desta interessante experiência.



QUATRO POETAS



ESTOU ASSIM

Eu tenho o hábito de habitar estrelas,
de ver nascer os dias.
Vivo do encanto do brilho que deixam
quando escorregam do céu ao infinito.
Refaço este percurso,
onde conheço as margens da estrada.
Todo encanto e magia de cada encontrar.
Eu tenho o hábito de ser tua,
te habitando os sonhos quando te pego distraído,
conhecendo o teu tempo de me amar.
Eu tenho o hábito de ser sereia, mulher em tuas veias,
serena em teu pulsar.
Tenho o hábito de fazer versos quando não te vejo
e te sei a me esperar.

Estou assim:
constância em te morar.


Poema de Hanna Luz.

***

EU SOU LIVRO


Eu sou o livro,
páginas claras, letras grandes
muitos contos,
crônicas, romances e ficções.
Sou livro de receitas.
Sou livro de lembranças.
Sou livro de retratos,
arquivo, geografias e matemáticas
solto folhas
origami fênix, barco,
caixas, serpentes, cavalos, borboletas...
Sou permeável,
sou o melhor que pude guardar da vida!

Poema de Walesca Testa.


***

BONECA DE PANO

Fizeram-me boneca de pano
para dar de presente a alguém
com fios de lã nos cabelos
na boca, esmalte vermelho.

Puseram duas pedras azuis
para meus olhos imitar
e um laço de fita na cintura
para menina ficar.
Os meus olhos não se fecham
estão sempre a te mirar.
Nada digo pois não sei
o que você quer escutar.

Sou boneca de pano
recheada de sonhos
e lembranças costuradas.
Alguns defeitos, mais nada.
Num arremate, inacabada...

Teu amor é brincadeira?
E me pões na prateleira?
Brinquemos pois de adivinhar
eu sei que comigo vive a sonhar...
Pois não sou seu brinquedo,
sou seu medo, seu segredo!
E me chama de amada...
Boneca de pano tem coração? Que nada!
Sou boneca de pano por me sentir assim
porque sou feita de retalhos de mim...


Poema de Edna Libera


***

FRUTO ENIGMÁTICO

Como fazer para do cítrico sentir o mel,
se não consigo extrair seu sêmem?
Das sementes da vida escolhi um réu.
Do sêmem do seu fruto encontrei um homem.

Fruto amargo que em reticências
Expressa o doce que não procuro
Observo suas raízes e experiências
Deparo-me com cortes através de um muro.

Um tronco de camadas ásperas
Folhas que surgem ambíguas...
Expelem com ira o néctar dos deuses!


Poema de Rosí Finco.




Ilustrações: 1- a poeta Edna Libera, também conhecida por "musa"; 2- as poetas Hanna Luz, Rosí Finco e Waleska Testa (sentadas) e Penélope (em pé); 3 e 4- Trabalhos da artísta plástica curitibana Príscila Reis.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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Do cinema à memória

 

Sempre aqui no Drops, damos dicas de eventos na “Casa da Palavra”, um espaço público dedicado a uma programação de cunho cultural, localizada em Santo André. O trabalho lá é voltado aos apreciadores e produtores da literatura, pesquisadores, pensadores, estudantes, artistas, e aos mais diversos amantes da palavra.
E é lá que fica o “Cineclube: O Cinema e Outras Linguagens”. A cada mês tem exibição de dois títulos que serão escolhidos em reuniões prévias entre o Coordenador da Escola Livre de Cinema e artistas que queiram lançar “provocações” para um bate-papo sobre as obras que serão apresentadas em cada sessão.

Data: 13 de junho a partir das 15h
Local: Auditório Heleni Guariba (anexo ao Teatro Municipal de Santo André)
Praça IV Centenário, s/nº Centro – Santo André (Paço Municipal)

Filme a ser apresentado:
OS IDIOTAS
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Comédia
Duração: 117 min.
Ano de lançamento: 1998
(Recomendável para maiores de 18 anos)
Um grupo de jovens intelectualizados forma uma sociedade a parte dedicada a explorar todos os aspectos da idiotice como valor de vida


Uma outra dica, agora no SESC Pinheiros: uma abordagem multidisciplinar sobre a Memória, um dos processos mais intrigantes do conhecimento humano, através de palestras, cursos, vivências, entre outras atividades. Durante os meses de maio e junho, a Memória será explorada da perspectiva da História.
Data: 15 de junho a partir das 20h.
Local: SESC Pinheiros, Sala de Oficinas, 2º andar.

“Mesa Redonda: Oralidade e seus Fazeres”
Mesa redonda que tem como proposta apresentar experiências e projetos desenvolvidos fora do ambiente estritamente acadêmico. Também serão abordadas questões referentes à valorização da oralidade e dos saberes populares nas ações do programa Cultura Viva (Ministério da Cultura), além de considerações sobre as relações entre a academia e as comunidades tradicionais, dentre outros pontos.

Mais informações no site do SESC Pinheiros.


Ana Paula Nunes é jornalista, Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo/USP. Coordenadora de Comunicação da Contemporâneos, revista de Artes e Humanidades. Escreve aos domingos no ContemporArtes.
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Dicotomias, lutas, fé e amor: Gays versus Igreja?


Certa feita, uma amiga comentava sobre as crises possíveis na cabeça de homossexuais religiosos. Se a sociedade diz que a homossexualidade é anormal, a religião diz que é errado, que é pecado...

Todo mundo pode se sentir no direito de fugir da normalidade, se for esse o caso (não é esse o caso). Mas fugir do que é certo tem efeitos piores. A carga do “anormal” pode até ser suportada (quem disse que estou a fim de ser “normal”?), mas a carga do “errado” pesa.

E enquanto seguem essas dicotomias extremistas, esse jeito limitado mesmo de enxergar as coisas, seguem cristãos e homossexuais massacrados dentro de sua própria consciência, sem liberdade, sem vida, sem fé, sem amor. Os paradigmas ainda atrasados que as igrejas oferecem são um grande desafio para a luta LGBT, para as saídas do armário, para o fim da homofobia.

Mas disso, todo mundo sabe. Preciso falar diferente.
Se as igrejas ainda erram ao tratar dos gays, o movimento ainda erra ao tratar da igreja.

Vício de tantos grupos que se articulam em torno de várias causas, temos a mania de personificar as lutas em torno de um inimigo só. Muitas vezes, o nosso debate sobre homofobia soa como se desejássemos acabar com as religiões (especialmente com o cristianismo) para ter, enfim, tudo muito resolvido.

A matriz religiosa da formação da nossa sociedade meio que já limitou nossa visão de mundo, nessa coisa de céu e inferno, homem e mulher (opostos completos, sem se misturar ou se confundir). A bagunça já está feita. Assim, simplesmente derrubar a instituição não faz com que derrubemos o pensamento discriminador que anda espalhado por aí, influenciando até mesmo quem está fora das igrejas. A mudança tem que proceder no pensamento do povo, não na estrutura, na hierarquia. Muitas vezes, precisamos até mesmo da estrutura para mudar o pensamento.

Digo isso por visualizar um lado (muito forte, por sinal) da igreja e do cristianismo que enxerga um outro Cristo, um carinha que morava lá pelas periferias da Galiléia, carpinteiro, favelado, sofredor... e que por isso entendeu e defendeu na sua mensagem todo um povo que, como ele, sofreu alguma opressão.

Jesus hoje iria na Parada Gay. Mesmo que não gostasse de homens, estaria lá pela causa política, pelo debate, pela luta por visibilidade de uma galera segregada pela falta de amor e respeito pela diferença. Estaria lá, assim como estaria no acampamento dos sem-terra, na ocupação dos atingidos por barragens, no protesto do movimento estudantil. Foi um preso político do seu tempo, defendendo as causas dos oprimidos, fortalecendo as lutas do povo, e cobrando de seus seguidores (até hoje) um posicionamento transformador.

Lá, na multiplicação dos pães, Jesus pede que as pessoas “se sentem” em grupos de cinquenta e p povo que o seguia era um povo de sofridos, de escravos. Nessa época, escravo não comia sentado. Pedir que se sentem, assim, sutilmente, é pedir que se libertem. As pessoas só precisam entender isso, mudar os pensamentos.

E assim, mais do que segregar e desejar um forte “cala a boca, senhor bispo!”, é preciso fazer entender que há um diálogo possivel, pela compreensão de que o amor tem a função primordial de libertar (assim como Jesus o quis)... A missão é fazer com que as pessoas acreditem é direito de todos sentir essa coisa que é o sentimento, coisa doida que deixa mais vivo, que faz lutar pela vida do outro através do cuidado e da afetividade, que pega a gente sem que possamos escolher o alvo... nem homem, nem mulher...

Faço, sim, uma defesa da religião. Faço por entender que, ao contrário do que se imagina, lá dentro a gente também se livra de alienações. Não se trata de uma evangelização cega, mas de um desabafo de cansaço por ouvir os comentários chatos de quem (dicotomicamente, também) acha que gays não podem estar na igreja, e que tudo o que virá dela será prejudicial. Se ainda precisamos que ela mude, a função de quem quer mudança é se inserir para mudar. É necessário postura de quem quer tranformação.

Pode até não parecer possível, mas é cá na minha fé que eu milito. Mais que por qualquer coisa, é por ser muito religioso que eu repito incessantemente o grito de não à Homofobia!!!



Murilo Araújo é estudante de Comunicação Social – Jornalismo pena Univesidade Federal de Viçosa. É militante da Pastoral da Juventude, onde realiza trabalho de assessoria a grupos de Jovens, defendendo as várias causas das Juventudes oprimidas. Escreve esporadicamente no blogue Eu Complexo.
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