Café, tropas de muares e ferrovia




De imediato não é fácil se explicar sobre o desenvolvimento de São Paulo... em relação aos fatores naturais, o solo desta cidade é considerado como um dos piores do estado. Caio Prado Jr cita, em relação a São Vicente e Santos, que os terrenos são baixos, mangues e pântanos inférteis para o cultivo agrícola, somente depois das construções das drenagens que melhorou a incidência de endemias. Já o planalto apresenta condições mais favoráveis para o povoamento, terras altas e clima temperado diferente do litoral que o clima é tropical.


Antes da expedição de Martim Afonso, o primeiro donatário da província de São Paulo, no começo da colonização oficial do território paulista já existiam europeus instalados na região escolhida pelos primeiros colonos, a vila de Santo André, a povoação era conhecida como Borda-do-Campo devido o lugar ser a trajeto a caminho do mar que constitui um campo. Em 1553 Tomé de Souza, primeiro governador-geral do Brasil, erigiu a vila com a denominação Santo André da Borda do Campo, mas, estava mais exposta a invasões por ser formada na orla da mata diferente de São Paulo que é compreendido no planalto.

Caio Prado Jr. aponta que São Paulo é privilegiado principalmente os cursos de água pelo Tietê, também pelo acesso ao rio Tamanduateí. Apesar da maioria dos rios não fossem fáceis de navegar, se tratava de melhor via de São Paulo. O povoamento se deu a partir do Tietê, para cima e para baixo, explica que São Paulo tem um importante sistema hidrográfico e relevo que contribuiu para sua contribuição para sua colonização e supremacia.

O principal fator econômico que atraiu a ocupação dos colonos no planalto foi a existência de varias tribos indígenas, uma abundante mão-de-obra, fato anterior ao tráfico negreiro, em meio aos interesses ocorreu um evidente deslocamento da população do centro litorâneo para o planalto, uma ocupação intensa diferente de outras regiões do Brasil. Os Campos de Piratininga foi considerado o primeiro lugar ocupado por portugueses, lugares que foram preparados para a instalação humana, lugar que serviu para o abrigo de várias tribos, sendo uma das zonas mais provisórias do litoral entre todo o planalto meridional brasileiro e os colonos vicentinos encontraram esta região descampada do planalto para se instalarem.

Partindo do pressuposto que “O homem busca no ambiente suas necessidades básicas, transforma a natureza para sobreviver, um processo de transformação do ambiente primitivo conduzida pelo próprio homem para cultivar campos, traçar e construir caminhos, desenvolver ferramentas para facilitar o processo de produção e lugares para a moradia. Este projeto de pesquisa possui como objetivo documentar através de texto e imagens a capacidade do gênero humano em função de sua atividade prática transformar a sociedade em que vive. O dinamismo das relações sociais devido à ação humana em conjunto determina as mutações ocorridas em todo contexto histórico, mas se torna necessário mostrar também que infelizmente na sociedade atual esta capacidade estrita do ser humano se encontra submissa ao julgo do capital. Por isso através do cotidiano nos deparamos com uma sociedade em que os valores e tradições são inseridos como perene o que remete a concluir que definitivamente os indivíduos se relacionam num mundo estático, em que as mudanças se encontram na jurisdição de algo maior e, principalmente, externo ao conjunto dos homens.” (ROSMANINHO e COSTA) buscamos investigar os impactos posterior ao funcionamento da primeira ferrovia em solo paulista, com base nas transformações no modo de organização do trabalho e no desenvolvimento desigual da distribuição territorial.

Realizamos um levantamento de dados históricos para explicar que as mudanças na natureza são realizadas pela atividade do próprio homem, com o objetivo de ir além das aparências imediatas e de acordo com os dados pesquisados evidenciar sensivelmente a constituição dos fatos, na busca do que o dinamismo das relações sociais proporcionou na aparente paisagem, uma análise com base em um meio crucial para as mudanças ocorridas no Brasil: à ferrovia, um meio eficaz para circulação de mercadorias, o que determinou a vinda de muitos estrangeiros e impulsionou o processo de produção industrial.

Escoamento de mercadoria pela ferrovia...

Através desta análise demonstrar que a concessão da malha ferroviária em 1854 com o intuito de interligar o oeste de São Paulo ao Porto de Santos foi determinada primeiramente para o escoamento de mercadorias de forma mais eficaz, alem cenário propício à efetivação do país como um mercado consumidor em potencial. A expansão da monocultura cafeeira no Brasil foi crucial para a introdução da ferrovia como um meio da circulação de mercadorias decorrente ao interesse ascendente de procura do mercado consumidor.

O cultivo do café e da borracha foi significativo na América Latina no panorama da economia mundial, sendo o Brasil o principal produtor do café. Devido a falta de uma ampla rede bancária os europeus organizaram o sistema bancário e o financiamento das exportações e as construções de vias voltadas para a articulação nos portos na América Latina. No século XIX a Inglaterra foi o país que investiu no mundo inteiro, em 1890 os capitais externos eram por volta de 50% voltados para títulos e empréstimos a governos, 45% eram aplicados na construção de ferrovias, portos, minas e serviços urbanos.

Anterior a chegada da estrada férrea no Estado de São Paulo as condições de transporte eram obsoletas para o escoamento do café o que remete a pesquisar sobre as tropas de muares e o desenvolvimento do comércio nas proximidades do trajeto, como por exemplo, a Parada Pouso da Tropa de Lágrimas, compreendida na atual cidade de São Caetano, e Parada dos Meninos, na atual cidade de São Bernardo do Campo, os tropeiros seguiam a caminho do mar do interior até o Porto de Santos com esse transporte rudimentar, o tempo de viagem era longo e desgastante o que determinou a construção de locais de repouso, de cultivo de produtos para o consumo imediato e do comércio. Nos fins do século XIX o volume da demanda do café chegou a um patamar que mesmo com diversas dificuldades a utilização do percurso chegou a colocar em risco a Mata Atlântica ao atender as necessidades mercantis vigentes neste período.

Pouso dos tropeiros

Os interesses econômicos estavam voltados para ampliar a produção do café para ser exportado, alguns dos principais produtos com procura de consumo a nível mundial foram facilmente exportados pela ferrovia, deste modo, o principal foco da ferrovia era operar em função do mercado mundial, a via férrea São Paulo Railway ligava o interior paulista com o Porto de Santos, o primeiro transporte ferroviário no Estado de São Paulo inseriu e distribuiu com eficácia também a produção inglesa.

A economia brasileira neste momento passa a concentrar e se basear estritamente na monocultura cafeeira, o trabalho no processo de produção era baseado na mão-de-obra escravista. Para os ingleses efetivar abolição do trabalho escravo proporcionaria de fato a resolução da problemática em relação ao mercado consumidor brasileiro, fator que permite ser constatado pelo grande interesse inglês em investir e aperfeiçoar o sistema ferroviário do país para potencializar o processo de circulação das mercadorias inglesas e a exportação não apenas o café, como também extrativismos vegetal e mineral, fontes de energia e matérias-primas principalmente voltadas para a construção civil, insumos provenientes da Mata Atlântica.

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Porre de Chopp


Conheciam-se já há algum tempo, amigos de labuta e de bebedeiras: drinques de tequila, triscos em vodka, goles de caipirinha, amargores de campari; mas nunca haviam tomado um porre de chopp.
Quando isso aconteceu... chopps e mais chopps a gosto de água, em noite de novembro desestrelada, olhos desvendados, restrições poucas, nenhumas...
Ah! dosagem despótica a convergirem rumos de amizade extrapolada.



Abilio Pacheco é professor universitário, escritor e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).
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Do Novo Livro de Alexandre Bonafim

Novos Poemas de ALEXANDRE BONAFIM
por Altair de Oliveira.

O poeta que disse que "o Brasil é um arquipélago de poetas", o mineiro Alexandre Bonafim, estará em breve lançando o seu novo livro de poemas "Celebração das Marés", do qual a coluna Poesia Comovida traz 3 poemas para o deleite dos nossos leitores que apreciam a chamada boa poesia.

Além de um rosto bonito e de um sorriso bom-mocista, Alexandre Bonafim é um poeta de primeira grandeza, intenso e sério em seu trato com a arte das palavras e é considerado um dos melhores expoentes da poesia que está sendo feita hoje no Brasil. Penso que esta merecida relevância do poeta é devido ao fato de seus escritos, ao contrário da maioria de textos que são produzidos nos laboratórios de letras e certificados nos conselhos universitários, conseguem extravasar os limites técnicos e cultos dos círculos universitários e ir atingir direto os corações das pessoas. A poesia de Bonafim é viva e comove, como bem deve ser toda a arte.

Em vez de começar a tecer comentários sobre um ou outro aspecto importante dos poemas do Alexandre, eu prefiro dizer que a impressão que me deram é que eles são auto-explicativos e tratam da vida do navegante solitário, pois solitário é uma condição do exercício literário, e dos assombros e dificuldades de continuar navegando a poesia hoje em dia. Todo homem é uma ilha, mas todo poeta é homem. Um poeta que se preza se atira às ondas e celebra todos os dias o seu não-naufragar. Então estes poemas de "Celebrações da Marés" alegremente me lembraram um barco bêbado que uma vez um poeta adolescente francês atirou arriscadamente às ondas em busca de "Flóridas floridas". Tenho certeza que também nossos leitores terão nestes poemas o que celebrar! Uma alegre semana para todos vocês e uma deliciosa leitura.





SOBRE O POETA ALEXANDRE BONAFIM:

Poeta, ficcionista, ensaísta e professor de literatura, Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte Em 1976, faz especialização em Literatura Portuguesa pela USP, atualmente mora em Franca-SP e é professor de literatura em Araraquara-SP. Entre outros, Bonafim escreveu os seguinte livros: "Biografia do Deserto" - 2006, "A outra Margem do Tempo" - 2008, Sob o Silêncio do Anjo - 2009, "Sagração das Despedidas" -2009, "Arqueologia dos Acasos - 2010 e "O Olhar de Perséfone" - 2010. Os poemas apresentados aqui pertencem ao seu novo livro "Consagração das Marés".



O QUE JÁ DISSERAM DELE:

"Nos poemas de Alexandre Bonafim encontro a evocação da alteridade teofânica do mundo, alteridade mediada por uma intensa interioridade, num movimento oceânico que parte do exterior até explodir suavemente como uma gota de orvalho depois do pensamento. O duplo olhar que contempla o vívido como uma mão que desenha o mapa para o mundo da alma, onde as palavras foram embebidas nesse ouro possível do silêncio e os poemas são seres e lugares sem fronteiras entre um e outro. Aqui um quadro de Franz Marc é tão vivo e mitológico quanto uma pedinte, um cão é tão sobrenatural quanto um unicórnio, O Võo das garças é ininteligível e sagrado como um eclipse e a presença da música de Chet Baker é similar à presença sonhada de um filme de Kieslowski. Longe de querer fazer uma apreciação técnica dos poemas e nem sei se teria capacidade para tanto...O que me interessa é afirmar o quanto a leitura dos poemas do Alexandre melhora os meus." Marcelo Ariel - poeta.


O QUE ELE DISSE DE SI MESMO:

"Tenho um rosto e um riso e por isso sou aquele que é feito de angústias, medos e alegrias súbitas. Sou aquele que quer da vida sempre a aventura máxima, o riso iluminado, a lágrima silenciosa. Sou aquele que respira no corpo dos amigos e carrego o coração em todos os poros, o que anda sempre perdido em todas as esquinas e todas as avenidas. Enfim, amo a vida, ou melhor, a poesia, pois ambas são a mesma verdade." - Alexandre Bonafim, em seu blog.


O QUE ELE DISSE SOBRE A POESIA:


"Eu precisei ler um importante livro do Rudolf Otto, intitulado O sagrado, para descobrir que a poesia nasce do “Tremendum”, ou seja, nasce de um sentimento visceral, feito corte de relâmpago a vergastar nossos sentidos, presença enfim do sagrado terrível. Eu sinto que a poesia insurge desse fascínio, dessa força motriz da vida, incompreensível, mas belíssima. O lirismo é um mergulho na noite do silêncio, essa noite de onde irrompemos e para onde seremos levados pela morte. Rilke, poeta imprescindível para mim, escreveu suas famosas Elegias de Duíno a partir de um chamado transcendente. Eu procuro essa voz escondia nos resquícios do cotidiano, nos pormenores da vida. Essa é a grande aventura da escrita: estar sempre a mercê de um arroubo, de um estertor pulsante." - Alexandre Bonafim, em entrevista concedida à escritora e jornalista Kátia Borges.




OS NOVOS POEMAS




CELEBRAÇÃO DAS MARÉS

- I -

Um risco de veleiros em fuga
sempre foi o teu nome.
Arquipélagos de incandescentes pássaros
os teus olhos. Os frutos do sal,
a íris do sol na filigrana das águas,
os cardumes do outono, clamam em teus pulsos
a presença de um fogo vivo,
cicatriz de um oceano em fúria.




Sempre foi o teu nome as marés.
Em cada palavra do teu ser,
navegam barcos de pólen,
peixes de constelações ardentes.
Em cada silêncio dos teus gestos,
nasce o azul dos cavalos marinhos,
movimento dos remos singrando o mistério.



O teu nome sempre foi os promontórios,
as ilhas desvairadas pelo verão.
Sobre tua nudez repousam
a brancura das velas infladas,
a plena luminosidade do meio-dia.



Em teu destino os corais tramaram
a encantação das estrelas marinhas,
a memória dos búzios.
Essa é a convocação das marés:
fazer do teu rosto o destino das ondas,
a areia desfeita nas orlas.



No teu nome o sono das crianças
apascentou a cólera dos naufrágios.


- II -


“Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras”

Sophia de Mello Breyner Andresen



Do cerne dos oceanos, do fecundo ventre da noite,
nasce seu peito tatuado pela força das âncoras,
pela fúria dos cavalos marinhos.
Sua pátria sempre foi os relâmpagos,
o sal, o trêmulo pergaminho dos vendavais.


Há milênios ele se perdeu de toda terra.
Há séculos seu andar tem a leveza das quilhas sobre as ondas,
das velas despidas pelo sal.
Por isso seu destino sempre se quebrou contra as marés,
contra a amplidão das águas sem nome.
Por isso seu barco sempre se partiu contra o infinito,
contra o nascimento do mundo.


O marinheiro mora em antigas tempestades.
De tanto queimar o rosto nas ondas,
seus olhos vestiram o êxtase dos cardumes cegos,
dos corais inundados de luz.


De longe, de muito longe ele vem...


Uma cicatriz corta-lhe o rosto:
relâmpago, ninho de enguias.
Uma cicatriz corta-lha a vida,
o coração, o seu destino inteiro:
faca de fina luz a singrar
os sonhos, a inocência.


Desertos sedentos, sequidão de ossos
ardem seu cerne, corroem seus desejos.
Por isso a errância é sua campa, seu jazigo.
Por isso lugar nenhum é seu túmulo.


A vida espoca em suas vísceras,
com a lucidez do ácidos agudos,
A vida é-lhe a urgência do salto,
do grito das águas, do urro das ondas.


De longe, de muito longe ele vem...


Ele tem o braço quebrado pelas chuvas,
a boca cinzelada pelas maresias.
Todo o oceano adormece em suas pálpebras.
Todas as procelas pousam em seus pulsos.
Ele tem o dom das luas cheias,
o estigma das constelações desnudas.


Do fecundo ventre dos oceanos, do cerne da noite,
nasce seu sêmen fustigado pela violência dos astros,
pela febre das estrelas marinhas.
Nos seus flancos veleiros ardem os pontos cardeais,
a embriaguez das gaivotas consumidas pelo azul.


De longe, de muito longe ele vem...


Dentro de seus olhos, no íntimo secreto do seu medo,
nadam medusas, tubarões cegos.
Dentro de seu assombro bóiam corsários afogados,
sereias decepadas, cordilheiras iluminadas.
Por isso sua pele sempre se desnuda nos nascimentos,
nas celebrações súbitas.
Por isso seu corpo sempre se nomeia no orgasmo das rebentações,
na ardências das águas vivas.


O marinheiro mora na ruína dos ventos.
De tanto rasgar as ilusões no sal,
todo o seu existir vestiu o esplendor do Atlântico,
a fúria mórbida do Pacífico.


De longe, de muito longe ele vem...


Seu barco sempre foi o silêncio dos búzios,
as algas, a solidão das ilhas esquecidas.
As fatalidades navegam em seus ombros.
Os desastres apunhalam seu nome.
Toda a sua luta sempre foi fitar a morte de frente,
como quem acalanta um criança jamais nascida.


De longe, de muito longe ele vem...


- III -


Do poema nada nos resta
a não ser essa viagem
rumo aos mares,
esse gosto de naufrágio
ao findar das paixões,
esse astrolábio partido.


A leitura do poema,
peixe cego, barco amputado,
nada nos ensina,
em nada modifica
a força das marés.


Rastro de espuma
na pele dos acasos,
o poema finca suas âncoras
no sal, na eternidade,
onde nossas ausências
ardem o grito dos corais.


O poema é nudez precária,
procela sem ventos, sem nuvens.
Quando nele adormecemos,
acordamos com os ossos fraturados,
vergastados pelas maresias.


O poema é tão inútil
quanto o mar ao fim da tarde.


Por isso seu esplendor é límpido
como a beleza da morte.




Alexandre Bonafim, de seu novo livro "Celebração das Marés."


***

PARA VER MAIS:

O Blog do poeta Alexandre Bonafim: http://arquipelagodosilencio.blogspot.com/

Poemas no site do poeta Antônio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/minas_gerais/alexandre_bonafim.html


***


Ilustrações:
1- foto do poeta Alexandre Bonafim 2- Capa do livro "O Olhar de Perséfone", desenho de Kátia Spagnol; 3- Foto de onda do mar; 4- Capa do livro "Biografia do Deserto".



Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.
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A imprensa brasileira de rock: Bizz – Ascensão e queda (parte 4/4)


por Marcelo Pimenta e Silva


A revista Bizz trazia em suas páginas uma abordagem alternativa das demais, tendo muitas vezes espaço para textos opinativos e com gírias que assemelhavam ao que a juventude brasileira falava naquele período. Dessa forma, a Bizz era contemporânea em linguagem ao que às rádios tidas como ‘malditas’ como a Fluminense FM, do Rio de Janeiro e a 89 FM de São Paulo apresentavam em sua grade de programação. O estilo gráfico era inspirado na revista inglesa Smash Hits e a chefia de redação de José Eduardo Mendonça.

A Bizz não se restringia apenas a estilos musicais, também era pauta o cinema, a moda, os quadrinhos, a tecnologia, a literatura, entre outros temas. Essa abertura para diversos assuntos teve bons resultados já na estréia, onde foram vendidos 100 mil exemplares. Logo se estabilizaria com uma média de 60 e 70 mil exemplares por mês. Em 1986 a revista consolida-se no mercado, graças também ao êxito do Plano Cruzado. Assim, a Abril lança outras publicações provenientes da Bizz como Letras Traduzidas, Ídolos do Rock e revistas-pôsters de artistas que faziam sucesso na época como The Cure, U2, Dire Straits e o grupo brasileiro RPM. O mercado publicitário também se aqueceu com o plano econômico e a Editora Abril explorou novas publicações direcionadas ao público jovem (FIGUEIREDO, 2005). A Bizz, em 1987, ficou segmentada apenas à música, já que havia sido lançada a revista SET, especializada em cinema. No mesmo ano, a revista passa a não ter concorrentes no mercado de música, pois a Roll e a Somtrês deixam de ser publicadas. Eram os sinais da retração da economia e do desgaste do Plano Cruzado. Nesse período, com a direção de redação nas mãos de José Augusto Lemos e o cargo de editor sendo chefiado por Alex Antunes, a revista assume um caráter “alternativo” em suas novas pautas (FIGUEIREDO, 2005).

Durante os anos 90 a revista seguiu alternando um discurso de apostas em bandas do cenário independente do rock nacional como Skank, Pato Fu, Raimundos, Planet Hemp, O Rappa, Okotô, Nação Zumbi, Carlinhos Brown, entre outros, assim como uma identificação da publicação com o movimento grunge e indie que se popularizava através da emissora MTV. Essa proposta mais “alternativa” seguiu até 1995 quando a revista passou a se chamar Showbizz. Com o tamanho idêntico da Rolling Stone (23x30cm), ela procurava ter uma linguagem idêntica à do canal de TV MTV, que se tornara um veículo abrangente e definia novos padrões de cultura e comportamento para os adolescentes e jovens nos anos 90. Com isso, a revista focava em um público “teen”, mas especificamente o masculino, com uma linguagem mais acessível e identificada aos adolescentes, além de explorar os espaços da revista com mais fotos do que com textos. Em 1998, a revista voltaria ao seu tamanho original, mantendo ainda o mesmo logotipo, contudo a Abril e a sua subeditora Azul, que produzia a Bizz, fizeram um acordo com a concorrente editora Símbolo, da forma que a Abril venderia assinaturas para a Símbolo, e esta teria suas edições trabalhadas pelos profissionais da Abril. Conseqüentemente, a Abril decidiu que a revista Bizz passaria a sair pela Símbolo, visto que, supostamente, esta editora trabalhava melhor com títulos segmentados. Da possibilidade de obter uma rentabilidade maior e de uma saída mais comercial para a Bizz, a revista em maio de 2000, passou a ser produzida e distribuída através da Símbolo, que destituiu diversos cargos que existiam na revista para cortar gastos e despesas internas. O resultado foi um prejuízo na qualidade da revista que aos poucos perdeu anunciante e reduziu o número de páginas. Em maio de 2001 a Bizz encerrou suas atividades.

Quatro anos depois a editora Abril retomou a revista com diversas mudanças na parte gráfica e com matérias novamente baseadas especificamente em rock e pop, além de matérias temáticas seja sobre drogas ou comportamento, mas todas tendo como foco principal a música. No contexto atual de blogs, e-zines, onde a internet é uma realidade já concreta e estabelece novas e dinâmicas formas de comunicação, a Bizz não resistiu novamente às mudanças da sociedade e fechou as portas pela segunda vez em julho de 2007.

Apesar de a Bizz ter nascido de uma demanda mercadológica, com objetivos explicitamente comercias, a revista notabilizou-se e ganhou credibilidade pela sua identidade editorial. Marcada pela irreverência ácida de seus jornalistas que criaram diversas polêmicas com bandas, músicos e gravadoras, a Bizz modernizou o jornalismo cultural do país. Essa característica anárquica da publicação fez com que ela fosse durante muito tempo a principal revista segmentada de música e cultura pop do Brasil. A Bizz continha um público fiel que enxergava na revista o principal veículo de comunicação de cultura jovem, isso antes da entrada da MTV no Brasil e do surgimento e popularização da internet no país. Mesmo que a revista tenha passado por três editoras diferentes (Abril, Azul e Símbolo e por fim voltando a Abril), além de diversas mudanças editoriais e gráficas, a Bizz traduziu toda uma geração (anos 80 e 90) que pode ser caracterizada pelo sociólogo Michel Maffesoli, como a das tribos urbanas. (1)

Dentro de uma perspectiva histórica sobre a imprensa musical no Brasil, em especial a voltada ao gênero rock, pode-se observar a “ascensão e a queda” dessas publicações como o resultado da expansão midiática nos últimos anos. Ou seja, se no começo as revistas serviam como principal canal de informação de um público consumidor do produto música, isso foi alterado com a introdução da televisão a cabo e, posteriormente, a popularização da internet. Dessa forma, as revistas de músicas passaram por uma reformulação em seu conteúdo, muitas perdendo espaço para os novos canais de informação gerada em blogs e redes sociais.


Nota:

(1) - Conceito desenvolvido por Michel Maffesoli que considera “tribos urbanas” micro grupos formados por indivíduos que têm em comum os mesmos gostos, idéias e objetivos em comum. Não tem uma ligação ideológica, contudo podem resistir ao poder com práticas alternativas de resistência. O interesse em consumir bens simbólicos próprios de cada sub-cultura os caracteriza em universos simbólicos característicos. Podem transitar de grupos para grupos, pois o sentido de pertencimento que os envolve é frágil. Exemplos: punks, headbangers, skinheads, neo hippies, entre outras tribos.

Referências bibliográficas:

BISSIGO, Luís. E assim se passaram 20 anos. Jornal Zero Hora. 19/01/2005. Porto Alegre. P. 6 e 7.

BRUNELLO, Aline Viviani; BORGES, Maria Fernanda Duarte Guimarães; TAKAHASHI, Vivian Cristina Bezerra. A Revista Bizz/Showbizz no jornalismo musical brasileiro da década de 90. Monografia de conclusão de curso de jornalismo da Universidade de Ribeirão Preto, São Paulo. Disponível em: http://www.unaerp.br/comunicacao/i. Acesso em 28 de agosto de 2009.

FIGUEIREDO, Alexandre. A volta por cima. Observatório da Imprensa. Disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.combr/artigos.asp?cod=358JDB003. Acesso em: 17de julho de 2008.

GUIMARAENS, Edgar. Algo sobre Fanzines. Disponível em: http://kplus.cosmo.com.br/materias.asp?co+4. Acesso em: 22 de setembro de 2009.

MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos. 2 ed. Rio de Janeiro. Editora Forense Universitária, 1998.



Contribuição do leitor Marcelo Pimenta e Silva, natural de Bagé/ Rio Grande do Sul, nascido em 11 de outubro de 1979. Jornalista pela Universidade da Região da Campanha – Urcamp, atua como assessor de imprensa e pesquisador. E escreve artigos sobre política e cultura em geral.
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A imprensa brasileira de rock: Rock Brigade e Bizz (parte 3/4)


por Marcelo Pimenta e Silva


Rock Brigade e a imprensa heavy metal
Como vimos no artigo anterior, o Rock in Rio e a cobertura da Rede Globo ajudou a divulgar o universo da cultura heavy metal, porém a revista que era o principal informativo do universo “metaleiro” a Rock Brigade nasceu no início da década de 80. Fundada por jornalistas que, antes de mais nada, eram também fãs de bandas de heavy metal, a publicação nasceu como um fanzine. O informativo do fã-clube Rock Brigade de São Paulo passou a circular no ano de 1981. A resposta do público foi tamanha que a partir da segunda metade da década de 80, a Rock Brigade já era a ser uma das principais publicações do gênero no mundo.

O diferencial na publicação através dos anos foi contar com uma eficiente distribuição nacional. Aos poucos a revista ganhava mais páginas e logo passaria de um informativo com folhas de papel jornal em preto e branco para uma revista toda em cores. Essas mudanças gráficas que seriam perceptíveis durante os anos 80, até o começo da década de 90, resultaram num aumento de anunciantes, a maioria composta por gravadoras e lojas de discos. Contudo, a Rock Brigade não ficaria restrita ao mercado editorial, ainda na década de 80, nascia a Rock Brigade Records, selo fonográfico que tinha a função de distribuir discos de grupos estrangeiros e lançar inúmeras bandas de heavy metal do país. Inúmeros grupos tiveram seus primeiros lançamentos produzidos e distribuídos pela Rock Brigade Records.

Na década de 90, a Rock Brigade era a principal revista de rock e heavy metal do Brasil. Contava com diversos correspondentes no exterior e abria espaços para outras revistas segmentadas dentro do nicho da imprensa musical. Top Rock, Dynamite, Metalhead, Valhalla, entre outras foram algumas das principais publicações da década de 90 e da década 00 que surgiram a partir do sucesso da Rock Brigade.



Bizz: um marco para a música pop nacional
A Bizz nasceu em um período único na história cultural do país, onde com maior liberdade social houve a ascensão do rock nacional como música popular. Com essa nova perspectiva dentro de uma indústria cultural consolidada, a Abril planejou lançar no mercado uma publicação mensal nos moldes das já consagradas Rolling Stone, Melody Maker, New Music Express (NME). A Bizz foi às bancas com uma bem definida estratégia de intenção e entendimento comercial, algo diferente de outras publicações anteriores, que na maioria dos casos foram efêmeras.

Durante o Rock in Rio de 1985, a Editora Abril encomendou uma pesquisa de mercado tendo como fonte o público que estava no evento. Nessa enquete havia perguntas sobre bandas prediletas; o tipo de publicação musical que gostariam de ler, entre outras questões que deram respaldo para que a Abril publicasse alguns meses depois, uma revista que voltada ao cenário da cultura pop. (Brunello, Borges e Takahashi, 2005).

A revista teve sua primeira edição publicada em agosto de 1985 e surgiu para atender uma demanda existente após a constatação que havia um mercado a ser explorado. Um grande consumo de produtos para a faixa etária dos jovens, que ia de vestimentas a aparelhos de som e vídeo; o aumento de público em shows nacionais e internacionais; a crescente venda de discos, além da revolução causada pelo videoclipe, fez com que a Editora Abril planejasse um veículo que pudesse suprir as necessidades desse público ávido por consumir informações sobre o mundo musical e cultural, além de atender a proposta do mercado editorial. (Brunello, Borges e Takahashi, 2005).

Com periodicidade mensal, linguagem adaptada à atual geração jovem, estilo gráfico moderno, material inédito que não se resumisse em biografias “requentadas” de “dinossauros” dos anos 60 e 70, mas matérias realizadas por jovens jornalistas que tinham especialização em crítica musical e cultural. A revista, além de contextualizar suas pautas com a produção do cenário brasileiro, soube captar essa mudança de perfil no jovem brasileiro, o que fez com que a publicação fosse um sucesso de vendas por mais de dez anos, tendo uma tiragem de cerca de 50 mil exemplares. Sem concorrentes na época, a Bizz tornou-se, de fato, o maior expoente como veículo impresso em jornalismo musical.


Referências bibliográficas:

BISSIGO, Luís. E assim se passaram 20 anos. Jornal Zero Hora. 19/01/2005. Porto Alegre. P. 6 e 7.

BRUNELLO, Aline Viviani; BORGES, Maria Fernanda Duarte Guimarães; TAKAHASHI, Vivian Cristina Bezerra. A Revista Bizz/Showbizz no jornalismo musical brasileiro da década de 90. Monografia de conclusão de curso de jornalismo da Universidade de Ribeirão Preto, São Paulo. Disponível em: http://www.unaerp.br/comunicacao/i. Acesso em 28 de agosto de 2009.

FIGUEIREDO, Alexandre. A volta por cima. Observatório da Imprensa. Disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.combr/artigos.asp?cod=358JDB003. Acesso em: 17de julho de 2008.

GUIMARAENS, Edgar. Algo sobre Fanzines. Disponível em: http://kplus.cosmo.com.br/materias.asp?co+4. Acesso em: 22 de setembro de 2009.

MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos. 2 ed. Rio de Janeiro. Editora Forense Universitária, 1998.



Contribuição do leitor Marcelo Pimenta e Silva, natural de Bagé/ Rio Grande do Sul, nascido em 11 de outubro de 1979. Jornalista pela Universidade da Região da Campanha – Urcamp, atua como assessor de imprensa e pesquisador. E escreve artigos sobre política e cultura em geral.
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Bom conselho (?)


Bom conselho (?)
(A partir de “A alma imoral”, de Nilton Bonder)

As posturas reacionárias são as que afirmam que, para cada situação e momento, há um “bom e correto” absoluto. As posturas revolucionárias, por sua vez, afirmam que “bom” e “correto” são inconciliáveis. Em posturas menos radicais, reconhece-se que a arte de viver é compreender quando o “bom e correto aos olhos da moral” é mais “bom” do que “correto”, ou mais “correto” do que “bom”. Duas coisas ficam comprometidas pela ausência de transgressão: a qualidade de vida e a possibilidade de continuidade.
A transgressão das próprias convicções é o maior desafio lançado ao ser humano que deseja evoluir, pois ele terá de sair de sua cômoda posição para a luta, que é um processo instável em busca de um novo equilíbrio. Trair a nós mesmos e nos surpreendermos conosco é algo de grande força.

Na trajetória da sobrevivência – e também da nossa profissão - , a “mesmice” muitas vezes é o caminho curto, o mais simples, e, também, o que tem os custos mais elevados, é o curto caminho longo. Ir pelo caminho mais simples e mais curto é uma lei evolucionista, o ser humano tende a se mover na direção mais imediata e curta. Porém as chances de sobrevivência dos que percorrem este caminho são bem menores, normalmente são sobreviventes aqueles que optam pelo longo caminho curto.

As encruzilhadas que a vida nos traz são de grande importância, elas são mais que meras opções de acesso pelo longo caminho curto ou pelo curto caminho longo, são opções de sobrevivência, onde o curto caminho longo pode não levar a lugar algum.
Viver exige sacrifícios, mas devemos ter cuidado para não nos sacrificarmos ao nada. Não podemos temer o que os outros irão pensar. Não devemos temer nossa própria auto-imagem, pois esta, tal como nossa moral, é um instrumento do corpo que não aceita se ver em “outro” corpo. A vida saberá nos julgar não apenas pelas “perversidades” que acreditamos poder evitar, mas também pelas “tolices” que nos permitimos.

Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais. Se fôssemos todos mais corajosos e temêssemos menos a possibilidade de sermos perversos, este seria um mundo de menos interdições desnecessárias e de melhor qualidade.
Construir algo é saber destruí-lo a seu tempo. Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela surgirá um mundo muito além da tolerância – um mundo de apreciação.

Como eu estou fazendo aqui com vocês, dividido, tensionado entre essas duas forças antagônicas, entre meu corpo e minh’alma querendo surpreender-me. Porque só surpreendendo-me posso (co)mover o outro.


Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.
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