Metamorfoseando



Por Yone Ramos Marques de Oliveira
Não é bem que seja difícil escrever: as vezes é fácil, algumas pessoas tem mais facilidade que as outras, outras têm muito a dizer. Não, não é tão difícil! Mas algumas vezes na vida, nas manhãs como a de hoje, frias e cinzentas, manhãs em que até o silêncio incomoda e que não há nada a dizer, parece algo muito difícil, muito difícil mesmo. Não os códigos e as palavras, elas vão sair! Não também os símbolos porque eles já existem, mas como se expressar quando não se sabe o que expressar? Em dias como hoje, lembro-me de Gregor Samsa e sua metamorfose contraditória numa simples manhã. Apenas me lembro...
Lembro-me da sensação de folhear as páginas daquele livro perguntando qual o segredo tão profundo ele iria me dizer, quais respostas ao meu anseio mais humano ele iria responder. Quem já leu a obra de Kafka deve ter se sentido assim, afinal, uma metamorfose como aquela deve esconder algo de muito valioso. Mas a história fadada do novo inseto me inquietava a medida em que avançava na leitura: será que ninguém percebe que ele sofre, será que nada vai mudar sua estranha situação? Quando ele se livrará do castigo de viver sozinho e tornará a uma vida simples e feliz ao lado de seus amados?
Quando conclui a leitura, todas minhas questões passaram por uma surpreendente mutação, uma verdadeira metamorfose! Porque elas já não faziam mais sentido algum, as perguntas que Kafka queria responder estavam além da minha inicial compreensão e todas foram esplendidamente respondida.

Se no início, a angústia do inseto me incomodava e aquela situação de lhe ser negado o amor familiar me angustiava, no final, elas se apresentaram como um simples destino ao qual todos estão ilimitadamente acessíveis. Ninguém pode conter ou mudar uma metamorfose como a de Gregor, tão insignificante que somos diante da própria vida que cisma em metamorfosear. E o inseto que não era amado pela família não era Gregor, nem pra ele, nem pra sua família: ele era um outro qualquer, tinha lembranças que não mais lhe pertenciam e seu infortúnio nada tinha a ver com os anseios daqueles de quem se lembrava. Se alguém perguntar ao livro, Gregor era amado? Sim, ele era! Gregor tinha uma vida feliz? Sim, ele tinha!
Gregor se foi sem partir! Gregor sempre partia, ele era caixeiro viajante e sua presença se dava na ausência e ele era amado mesmo assim. Mas quando partiu sem partir, deixou em sua família um vazio inconsolável. E eles sobreviveram mesmo assim! Ironicamente, a morte de Gregor foi resultado da inflamação de uma ferida causada pelo próprio pai. Mas que morte? Seu corpo físico, sua memória, sua alma já não estava mais presente para aqueles que amava e então, como culpar o pai de matar de um filho já morto? Irônico, não?! Gregor morrera, exceto para si mesmo, instantaneamente naquela transformação.

E meu desprezo por aquela família, diminuiu a medida que percebi que talvez o livro não falasse de Gregor, mas da família de Gregor, na visão do inseto. Sim, sobre uma família que se vê na perda e na angústia de se reconstruir e sobreviver após a partida de alguém que não partiu. A sorte de todos mudou. Como será que descreveria aquela situação a amorosa irmã de Gregor? Posso imaginar a garota escrevendo em seu diário que sentia falta do irmão que lhe abandonara, um irmão que a vida lhe roubou. Ou então se perguntando, "será que aquele inseto no quarto ao lado é meu irmão mesmo, será que Gregor não foi devorado por aquele monstro?".

O livro todo, exceto a mutação e após a morte do Sr. Samsa, é narrado na perspectiva do inseto (mesmo que em terceira pessoa). Assim como nós narramos nossas próprias histórias, com dúvidas, com sentimentos, com perguntas, com desconhecimento do outro.

Que culpa tinham os outros e, que culpa tinha ele, diante de um fato tão surreal? O livro não busca culpados, não julga. Não digo que essa era a intenção do autor, já que a vida do homem simples na sociedade de Kafka (e talvez a do próprio Kafka) poderia ser facilmente confundida com a do inseto. Não sei bem o que Kafka diria de si mesmo! Só me pergunto em que época que não poderia? Não sei se conheço bem de História, mas em qual época que a vida não poderia assim se representar para um qualquer? Pois é, a vida é assim: para uns, como Gregor, para outros, como a família de Gregor e ainda para outros, nem como de um nem de outro. As vezes, qualquer tentativa de expressão poderia ser igualada às palavras que Gregor outrora tentara pronunciar, que saíra como apenas barulho de inseto. Talvez eu tenha me transformado em um, mas isso, é só um talvez!




Yone Ramos Marques de Oliveira, teóloga e historiadora, escreve aos sábados, quinzenalmente no ContemporARTES.

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Amanda e Monick e a nova ordem sexual



Hoje não vou falar de teatro, mas de espetáculo cultural contemporâneo a partir de um documentário que ganhei de alunos em Campina Grande, na Paraíba. Achei importante e tomei a liberdade de invadir outras praias. Essa paria nova tem como cenário o município de Barra de São Miguel, no Cariri da Paraíba. O roteiro é o encontro de dois travestis. Monick é uma é prostituta, a outra, Amanda, é Professora de História dos ensinos fundamental e médio.

O caso Amanda e Monick surpreende a classificação de identidade, gênero e sexualidade. Elas são personagens reais e vivem em Barra de São Miguel, região do cariri paraibano cuja população é quase duas mil vezes menor que a do município de São Paulo. Nasceram homens, Artur Marculino Gomes e Hernando Porfírio da Silva se tornaram mais tarde, respectivamente, Amanda e Monick. Estamos falando, pois de uma identidade de travestis que são, de certo modo, estigmatizados pela maioria das pessoas como exóticas, estranhas, bizarras e ameaçadoras. A leitura, no pior dos casos, é que devemos ter medo delas; no melhor, que devemos ter pena.

Vale aqui, a guisa de esclarecimento, que travestis são aqueles que invertem os papéis masculino e feminino, por meio de práticas que introduzem atributos femininos na aparência física masculina. Essa prática de inversão de gênero é geralmente associada a outros exemplos de inversão, como, por exemplo, os homens que se vestem de mulher no carnaval, no último dia do ano nos famosos “Bloco das piranhas. O que pretendemos não é falar sobre esse travestimento, que por ser episódico, procura demonstrar o quanto nós brasileiros somos liberais, tolerantes e modernos. Queremos apontar nesse pequeno estudo que, ao invés de simplesmente inverter um conjunto de idéias, representações e práticas virando-os de cabeça para baixo carnavalescamente, o que Amanda e Monick fazem é contribuir para uma discussão bastante séria sobre a elaboração de determinadas configurações acerca da identidade, do gênero e de sexo na sociedade brasileira.

Amanda é professora de História. Magra, longilínea, elegante, com olhar confiante, conquistou o respeito dos alunos e dos pais dos alunos. Prefere o dia à noite. Seu figurino é sempre o clássico, o discreto. É melancólica e sua tristeza latente distancia-se do humor irreverente e desafiador que marcam os travestis. Maquiagem sóbria, cabelos bem penteados, sapatos de bicos finos e linguagem impecável, nem de longe se aproxima daquela vertente do homossexual como um instrumento de denúncia social, o outsider, cuja preferência amorosa desfaz o silêncio tecido pela sociedade em torno de sua origem e funcionamento escusos; pouco lembra também o homoerotismo exótico tão bem pintado por Oscar Wilde; nem tampouco o do parasita que provoca repulsa e reprovação [1]. Amanda parece uma mulher e age como se assim fosse. Não transgride, não subverte o dia a dia da pacata cidade. A base, o sustentáculo dessa auto-afirmação está centrada na figura de seu pai, Sílvio Gomes, que trata a condição sexual do filho sem segredos ou anormalidade, sem chegar nem perto do "politicamente correto". Entende como normal a condição de Amanda e sempre o apoiou irrestritamente.

Aliás, o diretor dá muita ênfase a essa parte final do filme. Na sequência desse plano, Amanda desce uma rua que tem a igreja da cidade como fundo. Ela desce de mãos dadas, carinhosa e afetuosa. O público intui que ele seja seu marido, mas logo sabemos que se trata de seu pai, que não demora muito a se transforma no personagem principal do filme. Ele faz um depoimento bastante comovente, realmente impensável para um homem do sertão. Numa viagem que fiz a trabalho para a cidade natal do diretor, Campina Grande (PB) ouvi de pessoas que a aceitação de Monick é real, que sempre se reúne com os tios e o pai para tomar cerveja. Amanda é família, embora nada se tenha falado sobre sua prática sexual é mulher para se casar.

Monick, a antinomia de Amanda, segue outro caminho, embora o início evoque um tipo de experiência compartilhada, não só por elas, mas por todas as travestis, como aponta Kulick (2008,71):
Sempre que olham para trás, para a infância, buscando os indícios que podem tê-las feito virar travesti, o que parece mais nitidamente e de maneira mais elaborada é o tema da atração por homens e do prazer proporcionado pelas brincadeiras sexuais com seus jovens parceiros. Em outras palavras, elas focalizam explicitamente o desejo homossexual como força motriz de sua auto-realização como travesti. O desejo homossexual, aflorado desde muito cedo na infância, está ligado a papéis femininos ou afeminados (brincar de boneca, atuar como mãe nas brincadeiras de casinha, ter o ‘pulso fraco’, ‘desmunhecar’).

Monick Mashahara é kitsch, “almodovariana”, uma mistura divertida de vários elementos, cores e estampas de uma forma harmônica e irreverente. É a idéia do so-bad-it’s-good que faz Monick performativa em tudo. No nome, carregado de um glamour decadente próprio das divas travestis, na maneira em que se pinta – exagerada, como se fosse um bufão das peças de Goldoni e no figurino indefectível. Assumida desde os 17 anos, trabalha como prostituta em Santa Cruz do Capibaribe, em Pernambuco. Tem um sex-appeal indescritível e faz o gênero “cavalona”, potranca vulgar. Através de sua performance, a “dama da noite” ficou fora da roda gigante e passou a representar o lado inescrupuloso da sociedade. Monick é fora-da-lei, fora-de-série, fora-da-ordem, um sujeito darwiniano que quer provar que o sujeito é social ou anti-social conforme ordena sua natureza animal. Ora dócil, ora transgressora, aparenta ter uma realidade familiar bastante diferente de Amanda porque em nenhum momento do filme é citada e, parece-nos que a relação delas com a família é que marca a diferença de suas trajetórias.


Sua sexualidade é outro ponto complexo. Monick mostra que nem todo homem com aptidão para se relacionar homoeroticamente seja incapaz de se relacionar sexualmente com mulheres, que a idéia de que a prática do homoerotismo exclua a capacidade de manter relações sexuais com mulheres. Ela afirma-se gay, mas engravidou uma mulher, Nilda, que é lésbica. Não sabemos muito bem sua profissão, mas os dois vivem juntos como “marido e mulher” numa casa muito simples. "Quando a criança nascer, eu vou ser a mãe e a Nilda [sua companheira] será o pai", confessa Monick", que é aluna de Amanda em uma das escolas em que leciona.

E a sala de aula é o cenário onde a trajetória de professor e aluno se cruzam no documentário curta-metragem do diretor paraibano André da Costa Pinto.

André mostra que apesar compreender a incapacidade do modelo binário em apreender a diversidade dos papéis, comportamentos e orientações sexuais existentes, as relações não-heterossexuais, muitas vezes, reproduzem os padrões heterossexuais, tanto nos papéis de gênero que os casais assumem, quanto no modelo estável de relacionamento. Por detalhes de criação e convivência social, histórias parecidas como as de Amanda e Monick, podem tomar rumos tão diferentes e tão parecidos ao mesmo tempo.

Se num primeiro momento “Amanda e Monick" coloca o espectador urbano no assento da dúvida e desconforto, afinal como em uma cidade de seis mil habitantes um travesti é aceito pela família, alunos e pais? Em uma sociedade machista e heterocentrada, acostumada com os classificações simplistas de heterossexual, homossexual e bissexual, a condição de Monick (um homem travesti casado com uma sapatão grávida) colocaria mais caldo na história, certo? Errado. Se isso acontece nos primeiros momentos do filme, em seguida o incômodo se dilui. A realidade supera a ficção e enquadra os personagens na velha tradição do binarismo sexual. Ao final, Amanda se transforma no arquétipo da professorinha de interior, que dá conselhos para os alunos e é bem quista por todos; Monick, mãe de família tradicional casada com um marido e capaz de qualquer sacrifício para manter o bem estar do rebento. Ou seja, apesar de reconhecer que hoje a sexualidade é encarnada numa construção discursiva-performativa (Butler, 1990), em “Amanda e Monick” há um curto-circuito conceitual nos sistemas de gênero e identidade, a transgressão se dissolve e o caminho final, o ponto de chegada é a constatação tácita da força do binarismo essencialista. O depoimento do pai, que emociona, é a imagem típica do Romantismo, totalmente familiar e domina o imaginário no qual o amor é o supremo Bem, afinal, como o pai herói de Amanda afirma, "O que vale em qualquer relacionamento é a felicidade".

"Amanda e Monick" não estão na terceira margem do rio, como tão enfaticamente escreveu Arnaldo Jabor, parece-nos que no filme de André elas não encerram perigo algum, risco nenhum, são mansas e não querem mudar nada.

“Amanda e Monick” poderia ser um réquiem às tradições opressivas, captandos-as em franca desintegração, mas, ao contrário, reforça-as e sustenta a idéia de que seja extremamente difícil imaginar outros modos de auto-realização pessoal numa cultura em que o amor romântico e “heterossexual” se tornou sinônimo de quase tudo que entendemos por felicidade.

1 - Sobre esse assunto, sugerimos a leitura do capítulo “Os amores que não se deixam dizer”, de Jurandir Freire Costa encontrado em A inocência e o vício – Estudos sobre o homoerotismo.

Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.
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UM MITO FEMININO DO PARANÁ: DIDI CAILLET

     

Em março de 1929, despontou uma superstar em Curitiba, com a eleição de Didi Caillet como a primeira Miss Paraná. Inteligente, articulada, e reconhecidamente bela, Didi brilhou intensamente na etapa nacional do concurso, realizada no Rio de Janeiro. A Capital Federal, que vivia os últimos tempos do governo Washington Luís, tomou-se de amores pelas beldades reunidas neste primeiro concurso, que entrou para a pauta de jornais, rádios e da intensa vida social carioca.


                                                                Retrato de Didi Caillet

Enquanto a maioria das meninas da cidade sonhava em conseguir um bom marido e lindos filhos, na Curitiba de 80 anos atrás, uma jovem de 19 anos largou o noivo e foi para o Rio de Janeiro, como a primeira paranaense a disputar o concurso de Miss Brasil. Voltou solteira, mas foi recepcionada na estação ferroviária com festa, banda e mais de 30 mil pessoas. Em uma movimentação que acabou virando um filme.

Quando se pergunta o que ela tinha de tão especial, as respostas de quem a conheceu parecem não ter fim. Ela era bonita, culta e ainda dava palpites na política. Filha de uma italiana com um francês, era a mais bonita entre as três irmãs, falava vários idiomas e tinha um carisma incomum. Foi a primeira mulher a gravar um disco de poesia no Brasil e não se tem registro de quantas músicas e poemas foram compostos em sua homenagem. Seu nome, Marie Delfine Caillet, mais conhecida como Didi Caillet.

Dona de personalidade cativante, Didi logo se tornaria uma preferida do grande público, arrastando multidões por onde passava. A etapa final, realizada no campo do Fluminense, em abril daquele ano, lotou o estádio e exigiu presença policial para conter os ânimos da massa. Classificada em segundo lugar pelo júri, em decisão contestada, a linda Didi tomou a faixa nas mãos e num gesto considerado de extrema fidalguia colocou-a na escolhida, a carioca Olga Bergamini.

                                                        Jornal Progresso de São Paulo- 1928

Didi virou mito e acontecimento cívico no Paraná. O psicanalista e pesquisador Paulo Koehler também se encantou com a personalidade desta mulher e juntamente com o compositor e publicitário Paulo Vítola há anos vem preparando materiais para um livro e um DVD, projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura de Curitiba. Paulo Koehler resume a saga de Didi sob o prisma de suas relações com o mundo do cinema de então. “Os cine-teatros centralizavam as atividades sociais da época”. A história de Didi se passa em boa parte nas salas do cinema mudo, às vésperas da introdução dos filmes falados”.

Nas entrelinhas da pesquisa, um dos achados mais surpreendentes pode alterar a história do cinema no Brasil. Contrariando toda a historiografia cinematográfica, que sempre localizou no Rio de Janeiro a primeira exibição de um filme sonoro, os dados levantados para a história de Didi Caillet atestam que esse acontecimento teve lugar em São Paulo.

O trabalho de Koehler e Vítola se vale de inúmeros registros de imprensa, como os desenhos de grandes chargistas nacionais, a exemplo de Alvarus, Nássara e J. Carlos, filmes, partituras, esculturas, além de fontes primárias que incluem documentos pessoais, colocados à disposição dos pesquisadores por Luis Gil de Leão Filho, filho de Didi Caillet. O lançamento do livro e DVD não tem data para o lançamento, mas os autores pretendem lançar ainda em 2010, quando se completa o centenário de nascimento da musa.

Quando o Rio de Janeiro ainda era a capital do país, ela ajudou o Paraná a ser reconhecido como um estado emergente, segundo Koehler, pesquisador da história da Miss Paraná. “Ela promoveu a imagem do estado, que era considerado um sítio, uma extensão de São Paulo”, diz. Didi era a preferida para o título de Miss Brasil e, quando anunciaram a filha do dono do jornal patrocinador do evento como vencedora, um dia depois do previsto, houve tumulto e confusão. “O público não se conformou. Houve um momento em que todos ficaram pasmos e sem reação, e a Didi é quem teve a iniciativa de pegar a faixa e coroar a primeira colocada. Isso foi mais uma prova de sua nobreza”, afirma o pesquisador.
Em Curitiba, Didi era a personalidade ideal para promover artigos de luxo – fossem carros, perfumes ou tecidos finos – e sabia alimentar sua imagem na mídia, participando de eventos da alta-sociedade ou lançando argumentos sobre assuntos polêmicos, como o voto feminino. Na moda, também teve papel significativo. Até então, ou se usava cabelo longo, ou curtinho. O cabelo dela era de cumprimento médio e serviu de modelo para muitas jovens.

Além de frequentar as conversas masculinas sobre política e economia, Didi também se destacava por desfilar pelas ruas em sua “baratinha”, um carro importado da Nash que havia ganhado do pai, numa época em que era incomum as mulheres dirigirem.

Nas homenagens da época, um registro gaiato, porque os automóveis adotaram uma buzina que em acordes e notas “dizia”: “Di-di- Cai-llet”, ao que a rapaziada de então emendava “levanta a saia que eu quero ver”...

                                                    "Baratinha" da Nash que ela dirigia pela cidade

Em 1933 ela casou-se com Luís Ermelino de Leão e teve filhos, passando a se dedicar à família. O passado glamuroso, estampado em três grandes livros com recortes de jornal, ficou de lado. Viúva de Luís, casou-se com o banqueiro e empresário José Gonçalves de Sá, em 1953. Ela e os filhos foram morar no Rio de Janeiro e por lá ficaram durante 22 anos. Quando o segundo marido faleceu, Didi retornou a Curitiba, onde passou seus últimos oito anos e escreveu três livros.

Na cidade, a praça que leva o seu nome e onde foi eternizada com a escultura “Vênus Paranaense”, continua sob a sombra de uma imponente e centenária nogueira, uma das árvores protegidas de corte de Curitiba. Ela não ganhou o concurso Miss Brasil, mas sua “belleza paranaisíaca” conquistou o coração nacional.
                                                     Praça Didi Caillet no Centro Cívico em Curitiba



Fonte:
Paulo Soares Koehler
Jornal Gazeta do Povo

Izabel Liviski, é professora e fotógrafa, doutora em Sociologia pela UFPR, escreve desde 2009 a Coluna INcontros, e é co-editora da Revista ContemporArtes.
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3 em 1: cursos e palestras grátis (com certificado)






Luz, câmera - a palavra em ação

Módulo II: Interfaces do cinema com história e literatura
19h às 21h

Docentes: Profa. Dra. Ana Maria Dietrich (UFABC)
Prof. Mestrando Cícero Barbosa Jr. (PUC-SP)


1. Documentários: o uso de entrevistas (Ana Maria) - 5.8
5. Cinema e História I - cinema e História do Brasil (Ana Maria) - 12.8
6. Cinema e História II - cinema e História Geral (Ana Maria) - 19.08

2. Cinema e Literatura I - grandes clássicos (Cicero) - 26.8
3. Cinema e Literatura II - adaptações (Cicero) - 2.9

4. Cinema e Literatura III - poesia (Cicero) - 9.9

Com direito a certificado presencial de horas
Local - Praça do Carmo, 171, Santo André - SP.



OBJETIVOS

estimular a discussão de como a palavra é apropriada de diversas maneiras pela linguagem audio-visual, passando pela análise do roteiro, seus usos nos documentários e questões interdisciplinares do Cinema versus História; o Cinema versus Literatura, exemplificando com diferentes formas de expressão da Sétima Arte no Brasil e no mundo.


JUSTIFICATIVA

O programa do curso foi desenvolvido para mostrar a interface entre a palavra e o cinema em múltiplos aspectos e vertentes cinematográficas, destacando-se o cinema novo e o cinema marginal. Está dentro do objetivo da Casa da Palavra que prima por discutir os enfoques multidisciplinares do uso da palavra. Enfocaremos questões sociais, históricas e literárias destacando a diversidade e originalidade de tal diálogo entre o cinema e a palavra de maneira a propiciar a ampliação da visão de mundo e o conhecimento das duas formas de linguagem e seu território de fronteira.

PUBLICO ALVO

Estudantes de ensino médio e universitários, profissionais ligados à Artes e Humanidadades e interessados em geral na relação Palavra e Cinema.








V Encontro Estadual de História

http://www.ucsal.br/vencontroanpuhba/home.asp

Mini-curso

19. ANA MARIA DIETRICH
ROTEIRO, NARRATIVA E MARGINALIDADE NO CINEMA NACIONAL



Docentes: Profa. Dra. Ana Maria Dietrich (UFABC)
Prof. Mestrando Cícero Barbosa Jr. (PUC-SP)



ROTEIRO, NARRATIVA E MARGINALIDADE NO CINEMA NACIONAL


ementa: a narrativa fílmica no cinema novo e marginal brasileiro dentro das prerrogativas da história cultural. cinema versus história: a produção e difusão de tais obras audiovisuais brasileiras. seu uso em sala de aula e como fonte de pesquisas históricas.


objetivos:
discutir as formas de elaboração do roteiro, o conceito de narrativa e especificamente, de narrativa cinematográfica.

fomentar um debate sobre questões interdisciplinares do cinema versus história, exemplificando com projeções de trechos de filmes brasileiros.

discutir o uso da fonte audiovisual dentro da linha de história cultural.

analisar a narrativa filmica dentro de seu contexto de produção e difusão, enfocando questões sociais, históricas e literárias

destacar a diversidade e originalidade do diálogo entre o cinema e a história de maneira a propiciar a ampliação da visão de mundo e o conhecimento das duas áreas e seus territórios de fronteira.




Seminário Vozes da Globalização - Módulo II - Identidades e Gênero
Com direito a certificado presencial de horas

Uma série de oito palestras que discutem o problema do feminino na contemporaneidade. Será discutida a temática do gênero, aliada à questão das múltiplas identidades associadas, trazendo a perspectiva de diferentes estudos de professores universitários da área de História, Literatura, Antropologia e Ciências Políticas. Dentro dos objetivos do seminário, pretende-se aprofundar a discussão sobre diversidade de gênero e inclusão social em tempos de contemporaneidade. Tendo como enfoque a sociedade global, propõe-se uma reavaliação de qual é o “lugar” da mulher na literatura, na antropologia, na história e na canção.

Apoio
Associação Cultural Morro do Querosene
Realização:
Casa da Palavra - Escola Livre de Literatura
Prefeitura Municipal de Santo André

Local - Praça do Carmo, 171, Santo André - SP.
Sábado das 10h30 às 12h30
22 de maio a 17 de julho


Próxima Palestra:

17/07 Masculinidades: (re)invenções de si e do outro"A masculinidade é histórica, forjada social e culturalmente. Não é um dado, ou uma realidade natural. Não se mostra como uma essência inerente."
Para analisar e complexificar a constatação acima, procuro identificar referências, imagens, símbolos e códigos que constroem e definem a(s) masculinidade(s). Questiono os padrões de masculinidade de nossa sociedade contemporânea, evidenciando as interdições e exclusões das práticas que fogem ao modelo estipulado. Abro espaço para pensar os conflitos e as crises de um determinado padrão de masculinidade e as múltiplas possibilidades de invenções de si permitidas pela ruptura do modelo historicamente estipulado.

Com Fábio Henrique Lopes (Prof. Dr. UFRRJ)Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 2
possui doutorado em História Cultural pela UNICAMP (2003); doutorado sanduíche com a Université Paris VII (2000/2001). Pesquisador do CNPq (Bolsa Produtividade/PQ- 2). Professor Adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Tem experiência em pesquisa/docência e publicações na área de História, com ênfase em Teoria e Metodologia da História, História Contemporânea e História do Brasil República, mas também sobre Educação, Cultura, Narrativas e Discursos, atuando, principalmente, nos seguintes temas: História Cultural, historiografia, suicídio, violência, discursividade médica (brasileira e francesa), imprensa, educação, normatividades, relações de gênero, relações saber/poder e subjetivação na contemporaneidade.

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CONTEMPORÂNEOS
Revista de Artes e Humanidades
www.revistacontemporaneos.com.br

CONTEMPORARTES
Revista Semanal de Difusão Cultural
http://revistacontemporartes.blogspot.com/
NEPCON- Núcleo de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade
UFABC/ UFV/ UFJF/USS/ UFBA e outros
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Talvez também tenhamos que gritar: EU SOU NEGUINHA!!!






♫ “Ooo Neguinha do subaco fedorento
♫ Bate a bunda no cimento
♫ Pra ganhar mil e quinhentos”

Mais uma vez imobilizada no trânsito sem concentração suficiente para continuar lendo, tentei voltar minha atenção as belas músicas que eram transmitidas pela rádio, quando de repente...
“as mulheres negras são mais vítimas da violência”

Tamanha tragédia era divulgada pelo informativo da emissora Nova Brasil FM daquela manhã cinzenta desta São Paulo engarrafada. Rio de Janeiro é o palco das cenas e conforme completou a diretora da ONG Criola, isso também ocorre pelo racismo evidente e pela posição de vulnerabilidade em que ela [mulher negra] se coloca. Repito aos berros: posição de vulnerabilidade em que ela se coloca.

E que fique bem claro que o “racismo é evidente”.

Desesperada no ônibus lotado olhando em volta com olhar inconsolável procurando alguém que pudesse discutir comigo aquela questão, me vi novamente sozinha na Mercedes abarrotada a pensar calada.
Posição de vulnerabilidade. Porque ELA se coloca?

Bom, abre- se enfim, neste nosso Bar algumas possibilidades que flutuam aos gritos em minha cabeça...

Voltemos à infância desta mulher negra, por que a menina negra é pretinha, mulatinha, escurinha, neguinha, moreninha, criolinha. Eis ai o diminutivo elevando a saldos negativos a baixíssima- estima da criança negra, basta lembrar da personagem Negrinha de Monteiro Lobato.

Devido ao seu cabelo vemos outro ponto de vulnerabilidade sustentado pela baixa- estima. Tido como ruim, duro, feio, bombril, difícil, cotonete, este cabelo que no entanto sobrevive as químicas ferrenhas dos alisantes, a firmeza das tranças que puxam desde a raiz, ao calor dos ferros, pranchas, chapinhas, bob liss, sem contar a vergonha de ter que escondê-lo embaixo de uma peruca, ou passar horas no entrelaçamento, aplique, é desde sempre motivo de insegurança para a mulher negra, para a menina negra então, um trauma que nem se fale...

Em seu caminho de menina para mulher, a vulgaridade muito bem aprendida através da mídia que des-cobre feito novidade com penas artificiais todo ano no carnaval a beleza tropical, “exótica”* da mulher negra, mulata e mestiça. Des-cobre seu quadril largo, seus seios fartos, seus lábios carnudos e a vende como saboroso produto para representar a mulher brasileira para todos os gringos, ou brasileiros que têm coragem de assumi-la.
Aliás, nós negras representamos a beleza da mulher brasileira no carnaval, mas no resto do ano somos a preta, beiçuda, cadeiruda, digna da feiúra da mulata do “Cortiço”*. Mulata está, doméstica, é claro, aliás, talvez a vulnerabilidade também se deva ao fato de que a bela menina neguinha do cabelo duro, precisa no máximo fazer o ensino fundamental, por que como toda boa negra, Maria ou Anastásia*, tem mãos maravilhosas para bolos empadas, assados, roupas, chão, vassouras, rodo, quase como uma casta, devíamos agradecer por termos vocação para o trabalho doméstico, para sermos ama de leite, provavelmente uma herança africana que devemos nos orgulhar. Nos orgulhar pela adaptação a escravidão e não nos orgulhar de uma talvez habilidade artística.
Por falar nisto, como somos artistas. Esse pode ser outro sinal de vulnerabilidade. Como felizmente não conhecemos a Folia de Reis, o Congado, o Cavalo Marinho, Maracatu, Maculele, Tambor de Criola, Capoeira, Samba de Roda, Umbigada, Zouk, Reggae, Blues, Spiritual, Jazz, Cu Duro, provavelmente temos que nos contentar com o duplo sentido sujo do axé e nos resumirmos limitando- nos a belas bundas em frenesi rebolar.

Assim, além de não conhecermos nossa ancestralidade cultural artística riquíssima que certamente construiriam dentro de nós negras e negros a importância da identidade cultural e étnica, possibilitando o inicio da criação de uma auto- estima de um grupo étnico que só assim se entenderia composto por atores socialmente ativos, nós também desconhecemos nossos mitos de criação, nossos ritos, cultos e religiões e nos punimos e nos auto- identificamos como terríveis bruxas macumbeiras, e não entendemos a ritualidade dançante e rítmica que pede boas ações para ascensão dos espíritos no Candomblé, na Umbanda...



Portanto, a meu ver fica Claro que a mulher negra de mãos calejadas, de quadril indecente, de muitos filhos sem pai, de ignorância conveniente, de estima dilacerada, que desconhece suas origens, que não se vê na mídia, nas novelas, nos palcos, que muitas vezes só pode cantar samba*, que carrega o pecado em sua cor, que ainda se conforma em ser escrava, que baixa cabeça diante de vossos olhos azuis, quase que deixa ser violentada por subentender que a culpa é dela, ou nossa. Esta história de vulnerabilidade que ela se coloca começa parecer menos absurda após elencar tantos jeitos de dilacerar silenciosamente um grupo étnico como exemplifiquei acima, por que a grotesca afirmação se explica por que há um desrespeito histórico que não justifica este sofrimento, este bullying coletivo que a população negra ainda sofre diariamente sem anunciar seu fim. Afirmo irritada por que sou mulher, sou negra e talvez mesmo cheia de auto- estima também me coloque em posição de vulnerabilidade porque nasci num país em que ser como sou é ser feio.

Ahh! E aquela terrível estrofe do topo da coluna é uma musiquinha que os coleguinhas de escola cantavam para a minha bela madrinha nos anos 60 e até hoje a mesma guarda tristes lembranças de quando o racismo era aplaudido e não apenas disfarçado.

Será que ela se coloca em posição de vulnerabilidade por que ouviu está música na infância?
Claro.


*Eu sou Neguinha, alusão a música de Vanessa da Mata. Mesmo não concordando e não admitindo o termo neguinha, vejo que necessário gritar “algo” em alto e bom tom...
* ver o peso na palavra exótico quando referente ao negro(a) no livro “A Cleópatra do Jazz” de Phyllis Rose
*referência a forma com que a negra mulher do dono cortiço era tratada, no livro “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo
*referência a Tia Anastácia do “Sítio do Pica Pau Amarelo” de Monteiro Lobato
*referência ao livro “Solistas Dissonantes” de Ricardo Santhiago
* www.criola.org.br

Dica do Mês:
Teen Broadway _ Curso de Teatro Musical nas férias, sob direção de Maiza Tempesta_ informações: teenbroadway@ajato.com.br _ WWW.cisnenegro.com.br/estudio











Aline Serzedello Vilaça cursa Licenciatura e Bacharelado em Dança pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e é estagiária do Ballet Stagium - Cia de Dança de São Paulo.
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A Passagem do Mito Roberto Piva


Vai em vôo o “Gavião de Penacho”.


Primeiramente desculpem-nos pela ausência desta nossa coluna de poesia na última segunda-feira. Problemas de força maior nos impediram de fazer a matéria antes.


Nesta semana a nossa coluna de poesia como a vida está triste, silente e cabisbaixa devido a perda do grande poeta marginal Roberto Piva, que faleceu na tarde deste último sábado (03/07/2010) aos 72 anos, no Instituto do Coração, em São Paulo.

Referenciado às vezes como poeta anarquista ou poeta maldito, Piva tentava viver a própria arte à maneira de alguns de seus mestres (Whitman, Rimbaud, Artaud, Pessoa, etc) e sua poesia parecia trazer um surrealismo redesenhado para os nossos dias. Ousada, combativa, social, libertária, mística, transgressora, homoerótica e provocativa, são alguns dos adjetivos atribuídos à poesia piviana. Melhor que falar do poeta (a poesia dele fala por si mesma), trouxemos aqui alguns depoimentos tecidos sobre ele e também alguns poemas deste grande poeta para compartilhar com vocês.

Influenciado pelos movimentos "surrealista" e "geração beat", o poeta estreou na década de 60 na "Antologia de Novíssimos", publicada por Massao Ono em 1961 e em 1963 edita o seu primeiro livro "Paranóia". Publicou ainda: Piazzas, 1964; Abra os olhos e diga ah!, 1975; Coxas, 1979; 20 Poemas com Brócoli, 1981; Antologia Poética, 1985; Ciclones, 1997. Recentemente Roberto Piva teve os seus poemas reunidos e editados pela editora Globo em 3 volumes: Um Estrangeiro na Legião: obras reunidas, volume 1, 2005 Mala na Mão & Asas Pretas: obras reunidas, volume 2, 2006 Estranhos Sinais de Saturno: obras reunidas, volume 3, 2008.

O que ele já disse:

"A maioria dos que você chama de 'mandarins bem-pensantes da cultura' não passa de um bando de galinhas assustadas. Eles tentam fazer pressão sobre minhas assumidas irregularidades de comportamento como forma de me enquadrar. Se eu me enquadrasse, eu ganharia página inteira na imprensa conformista. Eles gostariam que eu me calasse sobre tudo, mas eu não me calo sobre nada. Para essa canalha, o meu pecado é ser poeta e intelectual na total insubordinação". – em entrevista de 1983 – O Estado de São Paulo.


O Que já disseram dele:

“Um dos maiores nomes da poesia marginal brasileira.” – Jornal O Globo, em 04/07/2010.
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"A associação de Piva ao surrealismo, embora correta, pela presença da imagem, não pode esconder uma característica evidente em Ciclones: o uso da nomeação direta. Sua extrema concretude poderia até servir para vinculá-lo ao objetivismo anglo-americano, ao poetizar, não um mundo de abstração formal, porém o que está a sua frente e que ele vive. Essa característica, evidente desde Paranóia, o transformou no poeta das referências geográficas precisas, desde a Praça da República dos meus sonhos de 1963 até as Ilha Comprida, Jarinu e Cantareira deste último livro, tanto quanto das suas já notórias declarações enfáticas de pederastia, igualmente modos da manifestação direta, sem circunlóquios. Ele quer que as coisas recebam seus nomes: teu cu fora da lei/ teu pau enfurecido/ alegria de anjo/ nas estradas do prazer. Para Piva, um pau sempre foi um pau e um cu é um cu, tanto quanto uma rosa é uma rosa. Por isso, pela clareza, por ser o grande inimigo do eufemismo na poesia brasileira, e nem tanto pela obscuridade, hermetismo, caráter iniciático e intertexto, é que se explica um esfriamento crítico-acadêmico com relação a sua obra." - Cláudio Willer - poeta, sobre o livro "Ciclones".
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“Noto que Piva, poeta superior a 95% dos que aí estão, tem fé na palavra e, digamos, muita fé na contrarreligião, representada pelo xamanismo. Não se esqueça que xamãs são caciques, ou seja, chefes, detentores de segredos, e não só mágicos, salvadores da humanidade – o que se choca, em termos relativos, com sua própria poesia, que se pretende libertária. Talvez a graça de sua presença e poemas resida nessas contradições tão veementes de uma pessoa doce.” – Régis Bovincino, poeta, na resenha “Roberto Piva, Entre o Mito e o Mérito”.
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"Por último, devo referir aqui que a literatura de Piva leva a sério, mais do que qualquer outra coisa, o poder da própria literatura. É literatura embebida em literatura, que respira literatura, que fala o tempo todo de literatura. Um levantamento sem qualquer intuito de exaustividade encontra, em Paranóia, referências explícitas a Mário de Andrade, Dostoiveski, Lautréamont, Rilke, Garcia Lorca, Machado, Rimbaud, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Dante, Whitman, Leopardi, Tolstói, Oscar Wilde, Gide, Kierkegaard, Artaud etc. Se passarmos a Piazzas, estão lá, além de vários dos já citados, Maiakovski, Nietzsche, Rimbaud, Blake, Mary and Percy Shelley, Sade, Baudelaire, Isaac Asimov, Villon, Apollinaire, Michaux, Byron, Swift, Jarry etc. etc. Predomina, mas sem hegemonia, a linhagem maldita do romantismo, o que ajuda a esclarecer o fato de que, mesmo neste primeiro volume, quando o aspecto laico da profanação é mais evidente, a literatura já se insinue como limiar do sagrado. O caminho da transgressão significa, nestes termos, supor que a literatura é, por excelência, o lugar onde ainda se sustenta e respira uma potência resistente à institucionalização da vida. Tanto o interdito de significação, quanto o ritmo exaltatório estão ambos a serviço desse ato de proclamação, sem dúvida crente, de uma espécie de onipotência poética, exercida na libação irrestrita e anárquica do sexo e de toda sorte de excessos voluptuosos." - Alcir Pécora - no prefácio do livro "Um Estrangeiro na Legião".
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"Piva é uma usina viva de poesia, inconformismo e celebração do delírio sexual como forma de conhecimento. Além disso, ele detém um conhecimento raro, de uma linhagem de poetas xamânicos, que poucos conhecem com tanta familiaridade no Brasil. Apesar de marginalizada durante muitos anos, a obra de Piva permanece viva e admirada por muitos artistas que vieram depois dele." - Ademir Assunção, poeta e jornalista, na Revista Brasileiros”.
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“Um dos poetas mais celebrados das últimas décadas, Roberto Piva marcou o panorama literário brasileiro. O poeta compôs uma obra que aliava os movimentos de contestação da década de 60 umas doses de surrealismo pouco comum ba tradição poética brasileira.” – Folha de São Paulo, em 04/07/2010.


Alguns Poemas de Roberto Piva


LIBELO

Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
”Pormenor Esboçado ”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.


(Roberto Piva, in: Antologia dos Novíssimos, 1961)
***
Jorge de Lima, panfletário de caos

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se a contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como um talismã nos lábios de todos os meninos.


(Roberto Piva, in: Paranóia, 1963).
***
Paranóia

Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes
que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação.


(Roberto Piva, in: Paranóia, 1963).
***
Piazza V

"Oswald Spengler tem uma
porta no seu tornozelo
& nuvens através dele
limpando a pele
que projeta
um velho cachecol marrom
em seu olho
eu penso
pelos seus
líquidos compassos de sátiro
até
um cenário de músculos
impedido de esmagar
o carvão de
vidro verde
que aquece
a estrela nua de
anteontem
Oswald Spengler tem uma porta no seu tornozelo
batendo
até
altas horas".


(Roberto Piva, In:Piazzas, 1964)


Ilustrações: 1- O poeta Roberto Piva; 2- Roberto Piva; 3- Capa do livro “Um Estrangeiro na Legião”; 4- Metamorfose de Narciso, de Salvador Dali.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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Drops discute: celebridade e barbárie


Hoje, gostaria de compartilhar um texto que li durante uma aula da Pós-Graduação e que me fez refletir sobre muitos fatos que tem sido cada vez mais freqüentes na nossa sociedade.

O ensaio intitulado Celebridade e barbárie foi publicado na edição 147 da Revista Cult e tem autoria do Francisco Bosco. O autor traça uma possível relação entre fama do tipo, celebridades, e crimes bárbaros.
Bosco inicia o texto relembrando um assalto da década de 1970, em uma churrascaria carioca, onde os assaltantes ao reconhecerem um repórter, devolveram imediatamente seus pertences.

Bosco também cita outro exemplo, onde o assaltante ao reconhecer sua vítima famosa, desiste de roubá-la. Porém, o que Bosco percebe, é que de alguns anos para cá, esse tipo de reação tem se modificado extremamente. Uma situação citada no texto é da invasão da casa do cineasta Zelito Viana, em 2006. “quatro homens armados invadiram a casa do cineasta Zelito Viana, no Cosme Velho, e reconheceram entre as vítimas seu filho, o ator Marcos Palmeira. Entretanto, em vez de devolverem-lhe os pertences, trataram-no com violência redobrada: deram-lhe uma coronhada no rosto e por pouco não o levaram como refém”.

O autor também comenta exemplos de seqüestros, no caso de familiares de jogadores de futebol que sofreram violências. Como o caso da mãe de Robinho que ficou durante um mês em cativeiro.  Assim, Francisco Bosco atribui essa mudança de comportamento à uma transformação entre o crime e sua finalidade. “Na verdade, o que chama atenção é justamente o fato de que nesses crimes a violência não é um meio, mas um fim em si, um excesso sem causa e consequência aparentes.”

E o mais interessante, na teoria de Bosco, é que ele relaciona essa transformação de finalidade às características da relação ente os mitos de nossa cultura midiática e a sociedade. Para explicitar isso, ele argumenta que nossa era é criadora de um tipo particular de celebridade, os que são famosos por tautologia. “Antigamente, um imperador tornava-se célebre por suas conquistas bélicas, expansionistas. Um chefe de Estado notabilizava-se por sua astúcia política, por sua capacidade de liderança e presença de espírito.”

Hoje, não é necessário nada disso para alcançar fama, e sem ter nada à acrescentar, essa fama é vazia, ou como o autor mesmo fala, “A imagem da celebridade reproduz-se tantas vezes na mídia que ela acaba se tornando célebre. Ela é célebre porque é vista repetidamente. Daí a tautologia: é famoso porque é famoso.”

Bosco compara essas celebridades à parasitas, que vivem do desejo dos outros de quererem um dia chegarem a esse tipo de reconhecimento, é uma relação de masoquismo, de inconformismo. “É assim que a admiração pelas celebridades está sempre a um passo de se tornar ódio mortal. ‘Por que eu deveria amá-lo se a sua fama só serve a ele e ainda me humilha?’”

Dessa forma, a mudança no comportamento dos criminosos, isto é, a modificação do caráter objetivo do crime em violência excessiva, demonstraria o ódio daqueles que sofrem preconceitos, é que excluído da sociedade. “É a manifestação súbita da barbárie por parte de sujeitos que sofrem um processo gradual de barbárie por longos anos”.

Para aqueles que desejam ler o ensaio na íntegra: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/06/celebridade-e-barbarie/



Ana Paula Nunes é jornalista, Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo/USP. Coordenadora de Comunicação da Contemporâneos, revista de Artes e Humanidades. Escreve aos domingos no ContemporArtes.





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