Doida eu?



Doida Eu? Não, eu só queria algo a mais entende?Coisa que talvez pra você nem seja algo imaginável ou pensável,eu digo talvez,porque de repente você compartilha de algo maior também!Mas para o caso de não compartilhar, então digo a você, que eu cansei desse mundo comum,não sou conformista sou pacifista!Não faço parte desse mundo cinza de concretos irregulares e mal projetados, de esferas quadradas,prefiro os pontilhados caleidoscópicos da minha mente,são coloridos, e tem cores que nem existem aqui nesse planeta, então nem poderei descrevê-las para vocês!
Mas saibam que o meu mundo é roxo,uma pessoa me disse isso uma vez, e adotei como realidade a partir de então!Mas as vezes ele fica cinza, cinza por dentro sabe?Isso tem até diagnostico!Cinza por dentro: É quando você nota que tudo ao seu redor não faz sentido algum,quando você tem medo do que será da sua vida no futuro, se no presente já esta tão complicada, quando você é incompreendido por muitos e inclusive por você mesmo!Ai a rosa murcha, e só renasce novamente em um momento feliz, quando temos a oportunidade de sermos felizes! Porque segundo os ditados populares:
Sempre existe uma luz no fim de túnel!
No final tudo dá certo, se ainda não deu é porque ainda não é o final!
Mas é só no final que vamos ser felizes?Temos que se torturar para no fim da vida termos um minuto de felicidade, onde tudo vai dar certo!É pessoal,viver é complicado!

É quem escreveu esses ditados é mais pirado do que eu!



Marcele Moggi é escritora, ilustradora. Estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Escreveu excepcionalmente na coluna de hoje.
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Nova fase e integrantes Neblina Sobre Trilhos




Ainda em fase incipiente, iniciamos o processo de elaboração do livro. Alguns alunos da UFABC (Heitor Glauber, Fernanda Furtado e Felipe Senna) estão realizando a transcrição, textualização e transcriação dos depoimentos cedidos pelos colaboradores do projeto.

O maior enfoque para do livro são os trabalhadores ferroviários, entretanto, assim como no documentário, também iremos abordar alguns aspectos relacionados a cultura e o presente na vila. Me recordo que numa das apresentações do documentário um espectador comentou sobre a questão da “nova identidade” presente na Vila de Paranapiacaba... pois, é uma questão que também tratamos no audiovisual. Escolhemos enquadrar também esta mudança na função da vila por se tratar de um documento dos dias de hoje, retratamos a situação da vila. Ontem na Vila Velha e na Vila Martim Smith - a parte baixa - moravam operadores da ferrovia e, agora, este patrimônio da humanidade abriga, em maioria, moradores empreendedores (artesões, cozinheiros, contadores de estórias, monitores ambientais, turísticos, vendedores, garis...) com enfoque na ascensão do turismo.

Em conversa o aluno bolsista da UFABC, integrante do projeto, Heitor Glauber fala um pouco sobre suas impressões deste ano no projeto Neblina Sobre Trilhos:

“Bom, como eu entrei agora, no momento de divulgação do projeto, vejo que ele está caminhando como foi planejado, as exibições, transcrições, os relatos, todos estão caminhando como o que havia sido me passado anteriormente.”



Sobre o documentário diz,

É sempre bom ouvir um pouco mais sobre um lugar que você tanto gosta (Paranapiacaba) e sobre os primórdios da categoria que seus pais, padrinhos e avôs pertencem ou pertenceram. Tanto eu quanto meu irmão não pretendemos seguir a profissão de ferroviário por “n” fatores, porém sabemos da importância que essa categoria teve para São Paulo e para o Brasil. O documentário nos mostra um pouco disso. Paranapiacaba antes de ser a vila dos ingleses é a vila dos ferroviários e o documentário mostra isso. / Para efeito de história o documentário poderia ser utilizado além das escolas no eixo Santos-Jundiaí. Acho que em outros lugares poderia também ser utilizado, pois,  ele consegue mostrar como foi estruturada a vila de Paranapiacaba, desse modo, em escala microespacial é possível demonstrar como se é iniciada uma sociedade.




Sobre o livro comenta,

“O livro é um método de completar o documentário. Infelizmente não há como colocar toda a informação que se quer num documentário e o livro seria uma alternativa para que se possa passar o que não foi adicionado ao documentário. O livro trará informações que não foram abordadas no documentário, porém são assuntos relevantes, de importância para o contexto histórico do assunto relacionado ao documentário.”


O Heitor está responsável também pela disponibilização dos relatórios e imagens das exibições no blog do projeto http://neblinasobretrilhos.blogspot.com.br/.

Agradeço a todos que ajudam (ou ajudaram) de alguma forma na construção e continuação deste projeto!


Soraia Oliveira Costa, graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Trabalha com fotografia, audiovisual e oralidades desde meados de 2007, quando começou a analisar o cenário urbano, a natureza, o trabalho, as transformações sensíveis, os transportes, o comportamento, a cultura, a arte...Diretora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", sobre a vila de Paranapiacaba, feito com incentivo do MEC/SESu pela UFABC e pelo Centro Universitário Santo André.



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O QUINTO FILHO

Menino franzino, meio corcunda, com olhos e cabelos negros, que escorriam pela sua testa teimosamente. Quinto filho de Dona Maria das Dores, Jusué era um menino vencedor. Vencera sarampo, caxumba, meningite até. Sua mãe acreditava que eram suas rezas. A vizinha, que tinha curso de enfermagem e trabalhava no Posto de Saúde da cidade de Guariné, repetia aos vizinhos que eram suas mãos que puxavam o menino do Vale da Morte cada vez que ele escorregava na beirada, enquanto o Padre Severino creditava

suas vitórias ao fato de o menino ser coroinha da igreja desde os sete anos.

Cada um deles concordava, contudo, que não era por causa da Mãe Zíbia, benzedeira e macumbeira, que acendia velas coloridas e falava com voz grossa toda vez que o pequeno adoentava; proclamava que os espíritos do mal queriam levá-lo porque ele traria muita alegria ao mundo.

Para os donos do sítio onde Maria das Dores e seu marido Henriqueto Soares residiam e trabalhavam como caseiros, era apenas um acaso, uma sorte qualquer, que mantinha o menino fora das estatísticas de mortalidade infantil do país. Incomodava-os o fato de o menino consumir tanto tempo dos pais, que apresentavam atestados que a natureza se recusava a ler. O mato crescia, as galinhas tinham fome, o lixo se acumulava, estivesse Jusué doente ou não.

Todos os irmãos de Josué tinham nomes que começavam com a letra J: Jânio, Jerônimo, Jertrudes, Jairo, Jusué e José. Eram seis irmãos apenas; uma irmã tinha morrido afogada, com apenas 4 anos, na represa da cidade. Um menino tinha morrido de complicação de doença, explicava Maria das Dores, a quem perguntava, sem saber exatamente qual doença era. Todos ajudavam na plantação de café ou em casa, cuidando dos afazeres e dos irmãos menores. 

Não havia tempo para brincar, nem brinquedos. O que havia muito era fome.  Mas Jusué era um menino diferente, não comia de tudo, sentia enjôos e, assim, ia perdendo altura em vez de crescer. As costas curvadas e a aparência frágil eram motivos de zombaria dos irmãos mais velhos, que diziam para ele se esconder sempre que passasse um abutre por perto, para evitar ser levado por engano.

Um dia, o patrão estava na varanda ouvindo rádio, um CD de música clássica, e Jusué se escondeu atrás de uma árvore para ouvir. O Dr. Olímpio era homem culto, aposentado agora, alto e com cabelos negros lisos, descendente direto de espanhóis. Quando sua irmã se aproximou gritando seu nome, o Dr. Olímpio percebeu o menino e o chamou.


– Quer dizer que você estava me espiando?
– Não senhor.
– O que você estava fazendo?
– Eu tava ouvindo a música – respondeu, olhando para seus próprios pés.
– Ah, quer dizer que você gosta de música? Escute aqui, quando eu for à cidade, vou comprar um aparelho de som para você, desses que tocam CD, e vou trazer uns CDs para você. A música pode salvar um homem, você sabia?
– Sabia não – respondeu com os olhos arregalados. – Obrigado, doutor. – E saiu correndo atrás de sua irmã, de volta para a plantação.

Jusué ficou a pensar a noite toda. Como a música pode salvar um homem? Esse doutor era mesmo esquisito. Talvez fosse louco. Espingarda, sim, salva um homem. Comida. As rezas da minha mãe, do padre e da Mãe Zíbia. Mas, música?

No outro dia, Jusué acordou com febre. Sua mãe estava estranha. Parecia que seus olhos eram todo brancos. Pela conversa que ele tinha escutado de seus irmãos mais velhos, Jânio, Jertrudes e Jerônimo, a mãe tinha perdido um bebê. Parece que tomara um chá envenenado sem saber. Por isso, perdera muito sangue e não poderia carpir por uns dias.  Seria uma boca a mais para alimentar, disse Jerônimo, imaginando se a mãe tivesse tido o bebê. Jertrudes sentia as lágrimas escorrerem e respondeu que onde comem oito, comem nove; e que ela nunca tomaria desses chás que a mãe fazia quando estava prenha.

– Fio, você tá com febre. Vai tomar banho morno e bebe bastante água. Eu vou pro meu quarto rezar pra você. E assim ele viu, pela porta entreaberta, a mãe deitar-se na cama e voltar a dormir.

Um mal-estar de súbito tomou conta dele, e foi impossível chegar ao banheiro, vomitando ali mesmo, no chão da cozinha, onde acabara de beber água.

– Ô moleque, porque você não vomita lá fora?! Agora vou ter que lavar esse chão, seu porco! – disse sua irmã Jertrudes de forma truculenta. – Sai daqui, sai! – gritou apontando a vassoura como se fosse uma arma.

Ele saiu e sentou-se atrás da jabuticabeira, perto da varando do patrão. A árvore parece com catapora negra, pensou, cheia de bolinhas pelo tronco e galhos. Gosto mais quando ainda está florindo, continuou refletindo, parece uma noiva com os cabelos enfeitados.  Esperou até que o Dr. Olímpio aparecesse, na esperança de que ele não houvesse se esquecido do presente.

O doutor sempre dava presentes para ele. Sua mãe dizia ao pai que não gostava da diferença que ele fazia entre Jusué e os irmãos, que ele tinha dó de ver o menino tão magrinho que aparecia até os ossos. Para Jusué, não era problema. Ele nunca tinha ficado sem agasalho no inverno ou sem chinelo no verão, o que acontecia costumeiramente com os irmãos. Sorte tinha também José, que herdava tudo que nele ficava pequeno.  Ouviu o carro estacionando e o patrão gritar para seu pai:

– Onde tá o Jusué? Eu tenho um presente pra ele. Aliás, pra vocês todos. Mas ele é o dono, ele empresta para os irmãos quando não estiver usando.
 
Dr. Olímpio sempre protege o Jusué, resmungou Henriqueto, bem baixinho. Melhor assim, pensava, não dava conta mesmo de alimentar e vestir os miúdos. Jusué era tão magrinho que, quando os irmãos batiam nele, as marcas se eternizavam por dias em seu rosto de boneca.  Seus olhos escuros eram pequenos e caídos, o que dava a impressão de que estava sempre chorando. Tinha aparência diferente dos irmãos de cabelos crespos e avermelhados.

Jusué deu um salto e disse:

– Precisa me procurar não, pai, eu to aqui. A mãe mandou eu ficar embaixo de uma árvore até minha febre baixar...

– Ah, pirralho, você está aí. Então venha cá. Veja o que eu trouxe. Você tem que ouvir na sua casa, é elétrico.  Pilha custa muito caro e acaba muito rápido. Eu trouxe um CD do Mozart para você. Depois você conta se gostou. Deixe eu sentir a sua testa. Uhm, não tá muito quente não, deve ter sido só uma virose. A música vai curar você.

Jusué não conseguia falar. Sua respiração era tão rápida, como se tivesse visto um anjo, ou a Maria Morena, filha do caseiro do sítio ao lado.Sem saber direito como agradecer, ajoelhou-se e abaixou a cabeça, repetindo “obrigado, obrigado”.

– O que que é isso, moleque, levante já daí. Você endoidou? Se você não levantar, eu vou dar esse presente para outra pessoa. Onde já se viu, é apenas um toca-CD. Paguei 89 reais na promoção. E assim você me deixa ouvir minha música na varanda em paz, sozinho, como eu gosto. Eu me sinto vigiado com você atrás daquela árvore, me espiando, ou você pensa que eu não te vejo?

Jusué levantou-se e correu para casa. Como estava doente, não precisava trabalhar naquele dia. Ligou o rádio e esperou. Silêncio. Chiados. Colocou o CD. De repente, um estrondo maravilhoso. O maestro Leonard Bernstein, conduzindo a Orquestra Sinfônica de Viena, gravara as obras de Mozart, começando por Ave verum corpus.
 
Jusué sentiu-se arrepiar, mais do que quando viu Mariazinha Morena banhar-se no reservatório de água dos cavalos só de calcinha. Seu corpo todo ficou em alerta. Seus cabelos ouriçados. O coração batia velozmente. E assim ficou, durante mais de uma hora enquanto tocava o CD.

A impressão que a música clássica deixou nele foi tão profunda, que todas as noites ele ouvia o CD, bem baixinho, para não atrapalhar a novela das nove que os irmãos acompanhavam. Aos poucos, foi decorando os sons. Gesticulava enquanto ouvia. Chorava quando a melodia era mansa, imitava a voz da soprano nas árias, fingia fazer parte do coro. Seu cabelo liso dançava para cá e para lá, movimentando-se conforme suas viradas fortes de um lado para o outro, a conduzir a orquestra imaginária.

Jusué procurou Dr. Olímpio na varanda, em uma tarde de outono. As primeiras rosas nasciam, o verde das folhas nas plantas era claro e a jabuticabeira já havia sarado da caxumba, seus irmão comeram todas as suas feridas, pensou o menino com ânsia.

Dr. Olímpio estava sentado na varanda, com o gato Filé no colo. Quando viu o menino, perguntou se havia algum problema.

– Ah,  Dr. Olímpio, eu posso pedir uma coisa pro senhor?

– Ai, ai, ai, Jusué, eu acabei de te dar um presente há dois meses e você quer outro? Você pensa que dinheiro nasce em árvore, é? Sua mãe já me procurou para dizer que você tá precisando de roupa nova de frio...

– Não, doutor, não custa dinheiro não. Queria que o senhor perguntasse na cidade se tem vaga pra mim em curso de música do SESI. Eu ouvi dizer que lá se pode estudar de graça.

– Sua mãe sabe disso? Ela não quis colocar vocês na escola; como eu vou convencê-la a deixar você estudar música? Você tá louco? Ela não vai concordar nunca.

– Eu já falei com ela. Ela disse que não aguenta mais ouvir aquele CD, que se tiver um lugar onde eu possa ouvir música bem longe dela, ela não liga não, dá é graças a Deus.

– Entendi. Tá bom, eu vou verificar e depois te falo.

Foi assim que o pequeno Jusué chegou ao SESI, e uma professora de música, percebendo sua sensibilidade musical, pediu que ele dissesse qual era a sua música preferida. Como não sabia ler, Jusué disse que iria “cantar” um pedaço para ela. E, de olhos fechados, ele repetiu sons de violinos, de flautas, de contrabaixos, de coral e de solistas, soprano e mezzo soprano, mexendo os bracinhos para cima e para baixo, rapidamente, freneticamente, para depois virar as pequenas mãos com a maior delicadeza e doçura, sem abrir os olhos por nenhum momento.

No final, quando se recompôs, viu que a professora chorava, enquanto a diretora e outros dois professores haviam se aproximado para saber o que estava se passando. Juntos, os professores inscreveram o menino Jusué em um programa internacional para músicos de comunidades carentes. Também se revezaram em ajudá-lo com lições para que fosse alfabetizado e conseguisse assimilar pelo menos uma parte do conteúdo escolar que ele perdera. 

Para não perder a bolsa de estudos, não podia repetir o ano escolar. O padre ofereceu um canto para ele dormir na igreja, se fosse coroinha e ajudasse nas missas de domingo de manhã.  As intenções do padre, ninguém conhecia, mas a verdade é que o menino era tão bem cuidado pela professora, que ninguém se atreveria a fazer mal àquela criança que aos poucos ganhou um pouco de peso, melhorou sua autoestima e perdeu até a corcunda, andando orgulhoso de si, sem jamais perder a humildade.

Jusué tinha dez anos quando isso aconteceu. Sua mãe, quando soube, não demonstrou surpresa nem alegria nem tristeza. Talvez a apatia fosse por conta dos remédios para depressão depois do último parto de feto sem vida. Mas não se opôs. Achou até bom. Menino doente dá muito trabalho, disse quando entregou o menino para a professora que o acompanharia até Viena, depois de três anos de aulas.

E lá, onde Mozart conheceu o sucesso, Jusué se tornou um grande maestro internacional.  Nas suas primeiras férias, ofereceram uma viagem a Paris. Mas jusué declinou, já falando um pouco de alemão. Ele queria conhecer Salzburg, o berço de Mozart. Queria saber mais da vida daquele homem morto há mais de duzentos anos e que ainda inspirava corações pelo mundo todo.

Em suas turnês internacionais, hoje, após quase trinta anos, ele às vezes passa pelo Brasil. Vem a SP. Sua família não é mais caseira de sítio, agora são proprietários de um pequeno sítio em Louveira. Seus irmãos puderam estudar, apesar de que vários preferiram não fazê-lo. Jusué aprendeu a ler e escrever em português, alemão, inglês e mais cinco línguas diferentes. Nunca mais ficou doente. Sua fraqueza não era do corpo, era da alma. Sua alma tinha fome de música.

Ele faz palestras e visita escolas contando sua história, em vários países. Provando que cada um faz o seu destino, se tiver coragem de correr atrás de seus sonhos.

E a Rosinha Morena, o que aconteceu com ela? Sempre que vinha de férias para o Brasil, ele a encontrava. Foi sua primeira e única namorada. De volta à Europa, eles escreviam cartas apaixonadas. Quando ela fez dezoito anos, mudou-se para Viena. Depois, já com o primeiro filho nos braços, o pequeno Mozart da Silva, mudaram-se para Paris, onde vivem até hoje, com o filho único. Além de cuidar do marido e do filho, Rosinha é poeta. Mesmo depois de trinta anos, ela chora todas as vezes que assiste a seu marido reger uma orquestra. 
O que o quinto filho nunca soube, é que seu pai biológico era o patrão de cabelos pretos e lisos.





Simone Pedersen escreve contos, crônicas e poemas para crianças e adultos.
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Um espetáculo contemporâneo: Álvares, José Paulo Paes e Mário de Andrade





Hoje vamos escutar uma conversa entre o jovem Álvares de Azevedo e o experiente José Paulo Paes. Para tornar esse diálogo mais interessante, chamaremos Mário de Andrade. Não será apenas uma escuta, vamos passear com eles pelas ruas da grande São Paulo do século XXI. Não, meus queridos leitores, não estou me tornando louco. Hoje apresento a vocês a obra Uma noite em cinco atos, de Alberto Martins.



Esse livro, que ganhei de presente do professor e escritor Rodrigo Damacena, foi uma das leituras mais tranqüilas e instigantes que tive nos últimos tempos. Trata-se de uma peça teatral, que como disse, tem como personagens esses três grandes nomes de nossa literatura: Álvares de Azevedo, Mário de Andrade e José Paulo Paes.

Alberto Martins é poeta, artista plástico e ensaísta brasileiro. Nesse livro ele faz sua estréia como dramaturgo, e afirmo, uma belo passeio pelo teatro. Transcrevo alguns trechos da obra, para que possam ter esse gostinho.





"Zé Paulo
Eu, pelo menos, não cheguei a vender a minha alma.

Álvares
É que já não a compram como antigamente.” (p.30)

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“Zé Paulo
Álvares, nós somos bem seus filhos...

Álvares
Não tive filhos. Nenhum de nós. Poetas não merecem filhos.” (p.50)

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“Zé Paulo
Não, os lençóis estão contaminados.

Álvares
Fabricarei vacinas.” (p.84)

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“Álvares
Ridículo. Você é ridículo... Todo esse drama, todo esse gigantismo patético tipo século XX... Vocês são muito piores que nós: mais nefastos, mais cínicos, mais pretensiosos do que foram nosso spleen e as nossas ilusões fin-de-siècle.” (p.89)





Mas então, como pode esses três consagrados nomes da literatura se encontrarem em uma noite paulistana? Bom, deixo para você leitor descobrir não apenas o como, mas também o porquê houve esse encontro fantástico.




Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.



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Expressando a subjetividade: o ritmo da minha voz




No sofá da sala de casa, sozinha, ponho-me a refletir. Esse espaço me chama a entender o meu Eu, muitas vezes incompreensível para mim. Mas o que me trouxe a estar aqui neste momento foi um fator esperado, mas que se fazia longe de minha confluência de indagações – a tristeza repentina? – é essa uma objeção que tento entender, talvez já esteja cansada de tentar; talvez a resposta seja possível ao analisar minha trajetória de vida, o que não consiste em ser uma tarefa fácil, mas vamos lá.

Perdida em meus pensamentos vou e volto nas ruas do Jardim Presidente (São Paulo) onde fui criada, ouço minha mãe me chamando a dizer: Filha, isso não é brinquedo de menina. Hoje entendo minha mãe, consciente ou inconscientemente me adestrava aos papeis de gênero para não haver o “desvio” padrão. Mas o meu pai insistia em comprar para mim brinquedos ditos de meninos. Sou diferente, as meninas da escola gostavam de conversar sobre Barbie, cabelo, unha, maquiagem e eu - a estranha - não me animava a conversar ou a me entrosar naquela tribo (as “patricinhas”). Sempre fui fechada em um mundo criado por mim (quando me lembro dessa passagem da minha vida me recordo do filme Uma Mente Brilhante), solidão nunca me foi problema aprendi a compreendê-la, afinal ela também é sozinha, talvez por ser também estranha.

Cresci sendo marcada como a “menina-macho” por não me adequar aos costumes alheios, ou melhor, de certas tribos ditas como “o comportamento certo para uma menina”. No entanto não me abati com essas adversidades, gostava de skate, tocava flauta, capoeira, street dance e tantas outras coisas que me tornava diferente das pessoas ao meu redor. Fazer o que eu quero se tornou mais importante do que os estigmas a mim impostos, por eu ser uma menina e não um menino. Devido a problemas de depressão que acometeu um ente familiar tive que me deslocar para Bahia, o que não foi fácil para mim tendo em vista que já estava acostumada com meu modo de vida e com o espaço construído ao longo de minha trajetória.

Chegado aqui, com a idade de 18 anos começou a batalha acerca de um assunto para mim já superado: namorar e casar-se. Tendo em vista que na vida temos que dar prioridade ao que nos é mais importante, sendo para mim mais relevante devido à forma que fui educada, estudar. Sempre gostei de estudar. Percebi em uma analise diária que as pessoas daqui [há exceções] veem como um fator de suma importância você ter um namorado, ter perspectiva de se casar como se isso fosse garantir sua sobrevivência enquanto pessoa. Estranho é esse pensamento para mim (choque cultural). Mas compreendi segundo aos estudos antropológicos o porquê dessa visão – pensam dessa forma, pois o casamento desde seus primórdios significou uma mudança de vida, de forma genérica, uma espécie de “alpinismo social”, aqui haveria possibilidade de uma mudança de classe (de status). Por isso deposita nele todas as perspectivas de se ter um futuro melhor.

Entretanto, tudo isso é fruto das desigualdades a nos impostas ao longo da história: não partilhamos do mesmo nível educacional; não temos a capacidade de objetivação ampliada por não termos acesso aos diversos níveis de conhecimento. Mas isso acontece não por nossa culpa, mas sim porque nos foram negados ao longo da história espaços para a ação política. Negaram-nos a voz. Pergunta-te, quem é? Somos, negros, pardos, índios, mulatos (...) somos mulheres. – apesar de uma condição comum – cada uma dessas identidades intersectam de forma diferente formando subjetividade e maneiras de ser no mundo diversas...
Mas o que implica essa visão equivocada em minha trajetória é que mais uma vez sou estigmatizada e tida como “estranha” por fazer escolhas diferentes. Não que eu deslegitime a instituição casamento, apesar de muitas pesquisas apontarem ser essa uma instituição falida, no entanto, há controvérsias. Enfim, tive que ir me adequando aos poucos a essa nova realidade afim de não magoar ou discriminar ninguém. Mas hoje, nesse momento, minha tia me chama a arrumar o cabelo (da forma dela, é claro!), a trocar meu estilo de roupa afirmando que homem não gosta de mulher “desajeitada”. Cansei. Meu cabelo afro não agrada, tenho que pintar de loiro e alisar? , minhas roupas aconchegantes são “desarrumadas” requerem “ornamentação”. Pergunto-me: Em que sou perfeita a ponto de não precisar de mudanças sejam elas estéticas, psicológicas, etc.? É difícil se entender, e pior ainda, é difícil entender os outros. Minha raça precisa de alisamento, meu gênero requer voltar à submissão. Onde fica a história da “alforria” e da emancipação? Situe-me, sinto-me perdida em minha própria história!

Voltando ao meu estado de espírito nesse momento não me encontro mais triste, descobri que através da escrita me liberto das amarras que me prendem, é uma terapia. Talvez tudo ate aqui escrito pareça, loucura, utopia de uma estudante menor, mas convicta de que nada vale a pena se a alma é mesquinha e pequena. Nada vale a pena se você não procura entender o outro, não no sentido de criticar, mas de acrescentar, somar. Há em cada ser humano o sentido épico da vida a desejar mares nunca navegados, e mesmo amesquinhado com a hora áspera da morte teima a viver e a redescobrir-se enquanto humano, enquanto pessoa, enquanto cidadão. Objetivemos a olhar o uno como a unidade do diverso.







Taysa Silva Santos é graduanda do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Gênero, Raça e Etnia e também do Grupo de Pesquisa NATUSS, Natureza, Trabalho, Ser Social e Serviço Social da mesma universidade.


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Toda arte é ideológica?





Quando um artista se expressa por sua criação, sua expressão é um produto ideológico, simplesmente uma reprodução das relações vigentes, ou é uma expressão idiossincrática de sua ideia mais interior? Ele (o artista) é livre para se expressar da maneira que quiser? Pode expressar sua cosmovisão?

Tendo como base inicial os Estudos de Uma Cultura Agonizante, de Christopher Caudwell, vou tentar pontuar sobre esta questão.

De início, é necessário colocar em papel as duas maneiras mais usuais de se utilizar a palavra ideologia: 1) de maneira crítica, onde ideologia seria uma forma de dominação, tendo como base o monopólio da produção intelectual de uma classe que, desta forma, afirma seus interesses como interesses coletivos (e os naturaliza), retirando a característica das relações sociais de relações entre sujeitos, para transportá-la à relações em sujeito e coisa. Desta forma, evitando qualquer tipo de conflito que poderia haver entre a classe detentora do poder estatal e a classe explorada. 2) de maneira ampla, como a cosmovisão de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade, sem a relação entre modo de produção e defesa de um interesse de classe. Irei utilizar a primeira definição ao longo do texto, conforme o próprio Caudwell utilizava.

A arte, em Caudwell, é, antes de tudo, a sua função. Arte não é arte se não for reconhecida como tal sob determinados símbolos sociais, ou seja, a expressão artística, em sua tentativa de expressão, é colocada sob trajes sociais que permitem sua leitura, esses trajes sociais fazem parte de um determinado campo de símbolos socialmente reconhecidos e, portanto, quando são utilizados, se reproduzem. A arte, então, seria a expressão do momento histórico, social, político e econômico de uma determinada sociedade, sua função seria determinada pela observação de como ela é assimilada. Para Caudwell, a arte causa aquilo que ele chama de atividade afetiva, uma súbita e momentânea sublimação da moral proibitiva, o ímpeto pela quebra de alguma regra social oculta, de algum tabu, e, após essa fase, a natural tentativa de reintroduzir todos os trajes sociais que, desta forma, foram sublimados. Arte é demonstração das contradições entre a linguagem e as relações sociais materiais.

Desta forma, a tentativa de se expressar de maneira totalmente original, de expressar a pura individualidade sob a forma de arte, seria uma tentativa fadada ao fracasso, pois o sujeito está limitado pelo momento histórico e social que vive, além de estar situado em uma sociedade estruturada e, desta forma, também ser coagido a ter como expressão tal estrutura em que vive e que somente com ela pôde absorver a linguagem utilizada na sociedade correspondente. A arte de consumo, arte para o mercado, desta forma, não seria arte, mas a sua negação, a negação do mercado e a expressão individualista de arte, também não seria arte, seria só “devaneio pessoal” do artista – no fim das contas, ambas são ideologia, ambas são apropriação da arte como aparelho ideológico, sendo a primeira como a demonstração última do mercado como relação entre sujeito e coisa, como algo exterior que comanda nossas vidas, já a segunda, curiosamente, seria a afirmação filosófica do individualismo liberal, a expressão artística de um eu supostamente livre de associações condicionantes, mas que, em última instância, está sendo condicionado pela própria perspectiva liberal – ainda seria ideologia.

Se conscientemente não há a tentativa de manter a ideologia vigente e simplesmente reproduzi-la, essa tentativa acontece pela limitação do sujeito como artista-criador pertencente a um determinado período histórico e do público que se organiza sob determinados símbolos e, por eles, conseguem classificar a arte de inúmeras maneiras. O espaço simbólico é mantido, a obra em si que é sempre modificada.

É por isso que, para Caudwell, a pergunta deve ser: “Que função social a arte está desempenhando?”. Esta pergunta pode ser recolocada em: ela está demonstrando as contradições entre a percepção das relações sociais e a expressão concreta das mesmas relações? Se sim, temos uma arte que participa do processo social, senão, temos uma arte ideológica.

A análise da função da arte vem como tentativa de distinguir aquilo que se pode chamar de arte e aquilo que é reprodução ideológica pura. A arte é o que consegue demonstrar o desalinhamento das relações sociais, a arte é aquilo que, além de expressão, é expressão não-alienada, ou seja, é uma expressão consciente de si. Ao demonstrar as contradições da linguagem e do mundo concreto, ela testemunha um período histórico sob um viés de transformação, e sincero. Desta forma, os diferentes quadros, livros e música de artistas de um determinado período histórico que tentam, a todo custo, expressar uma suposta liberdade artística, que fazem a arte pela arte ou que desdenham esses conceitos e fazem arte para o mercado, são todos iguais. Todos são a reprodução um do outro e, conforme é possível sua reprodução, a arte perde seu valor social, sua unicidade, sua áurea – perde seu testemunho histórico.

Um exemplo contemporâneo pode ser a apresentação de Arrigo Barnabé no Festival de MPB na USP, de 1979, está apresentação foi aquilo que podemos chamar de atividade afetiva emanada do público – os gritos de aclamação e as vaias, muito divididos, demonstram como a música de Arrigo, em todos os detalhes, conseguiu tocar uma ferida da linguagem e causar a sublimação momentânea da moral, juntamente com a imperiosidade da ordem vigente se afirmando pela censura àquilo que se expressava.





Vinicius Siqueira de Lima é pós-Graduando em Sócio-Psicologia, cursando extensão em História da Filosofia, escreve artigos freelance para o Artigo Mundo, tem uma página/blog na seção Lounge, da Obvious, colabora no site Os Cinéfilos e adora escrever sobre livros, filmes e sobre a sociedade em geral. Contato: vinicius.lima121@gmail.com

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