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Jean Wyllys em Berlim ou Não perca seu Tempo falando dos Outros





Neste último sábado fui ver o Deputado Federal Jean Wyllys falar na XXII Conferência Internacional Rosa Luxemburg, aqui em Berlim. Iniciada e organizada pelo Jornal marxista junge Welt, como o apoio de sindicatos, mídias e organizações de esquerda, a Conferência acontece desde 1996 e tem como intuito discutir sobre as perspectivas de mudanças socais, sobre a atualidade da obra de Rosa Luxemburg, sobre teorias e políticas de esquerda e sobre os movimentos anti-imperialistas do passado e de hoje. Sempre com palestrantes vindos de outros „contextos políticos“, principalmente convidados internacionais.

Jean Wyllys representaria a esquerda brasileira numa conferência, digamos assim, repleta de significados políticos e históricos. Estava contente pela oportunidade de ouvir o famoso Deputado e cheia de expectativas, mas qual não foi a minha surpresa quando, no fim, a sua fala se “limitou” a explicar o Brasil aos alemães, a explicar como se dá as relações sociais repressivas e como a direita, com a ajuda da mídia, manipulou o povo e usurpou o poder. Sem deixar de esquecer de explicar o episódio da cusparada, o deputado ganhou palmas da plateia ao dizer que “cuspiu na cara do fascista”. Não sem uma autocrítica,  é preciso dizer.

Mas como? É isso? Vir aqui e explicar aos gringos o país e dizer como tudo lá é injusto? A fala do deputado se limitou a dizer como a elite no Brasil é ruim... Fiquei com gosto de “querer algo mais além”. Não que o que foi dito seja errado, ou falso, ou indevido, mas fiquei querendo saber da força, das estratégias, das vitórias ou derrotas da luta. Afinal o partido do Deputado foi ao segundo turno das eleições ao Governo do Rio de Janeiro! Alguma coisa foi dita rapidamente apenas na respostas das poucas perguntas que lhe foram feitas. Deixo um link com a palestra para quem se interessar.

A coisa piorou, quando logo depois dele, ouvi a fala de Arnaldo Otegi, o líder do movimento de independência basca na Espanha, preso político, ex-militante do ETA. O cara falou das conquistas e da experiência política na Espanha, do que eles alcançaram e não alcançaram em sua luta, dos erros e do que buscam. Ele falou do movimento, e não do Estado ou do “outro” opressor. Isso me deixou ainda mais decepcionada com a fala do Deputado Wyllys, queria que ele mostrasse que existe força, que existe vida inteligente no Brasil... ele mostrou apenas a direita. 

O que falta neste discurso da esquerda brasileira? (com permissão à generalização) Seria uma outra autoconsciência? Seria bradar o seu potencial e ter claro a sua estratégia de luta, ao invés de ficar apontando para os opressores?
Dias depois vejo no face a entrevista de Vladimir Saftle para a caros amigos, e num trecho ele toca no ponto que me sensibilizou na fala do Deputado Wyllys. Ele identificou o ponto, e vejo que não estive errada na minha impressão.

"(...) é muito fácil (...) começar a fazer esse esporte tradicional no Brasil, que é tacar pedra na direita. (...) Só que isso pode ser uma satisfação narcísica, a gente lembrar que não é como eles. Mas isso não vai servir de nada, porque a questão não é essa. A questão é: nós, o que a gente tem para oferecer hoje, de fato? (...)"  (Vladimir Safatle à revista Caros Amigos)




Fala do deputado Jean Wyllys
https://www.youtube.com/watch?v=WdiEF4cdw2s&feature=youtu.be
https://www.youtube.com/watch?v=zWJuYZDWIGQ

http://www.carosamigos.com.br/index.php/grandes-entrevistas/8916-vladimir-safatle-por-uma-autocritica-da-esquerda

Ana Valéria Celestino, mora em Berlim há quase duas décadas, tempo que vem observando as mudanças da cidade. Estudou História em São Paulo e em Berlim, hoje trabalha como tradutora.

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tudo cabe no museu




Hoje a notícia de destaque foi a de que o o Museu "Haus der Geschichte" em Bonn está pensando seriamente em expor parte do caminhão usado no atentado terrorista ao mercado de natal em Berlim. O Museu trata da História da Alemanha sua exposição permanente a barca "tudo que é alemão" de 1945 até hoje, inclusive a história da divisão do país. Já está no conceito do museu apresentar objetos originais, não importando sua dimensão, expondo-os numa "cena original" e sempre acompanhado de outros documentos e informações.



Para tomar a decisão definitiva, segundo o presidente do museu, é necessário esperar ainda mais um tempo. Por conta do caminhão ser muito grande é preciso decidir que parte seria exposta. Hans Walter Hütter não quer deixar para a História apenas a versão dos terroristas e vê como tema de grande importância social, portando, querendo ou não, pertencente à História Alemã.

O jornal "Der Tagespiegel" publica uma opinião favorável, afinal existe o museu do corredor da morte no Texas, onde se pode sentar na cadeira elétrica e até comprar um livro com as receitas mais pedidas pelos condenados para a sua última "janta". Existe o museu de Auschwitz e o Ground-Zero, em NY, é bem documentado, apresentando restos achados nas ruínas do Trade Center... O caminhão já faz parte da História do país.




O "opinador" continua dizendo que, apesar de que, segundo Freud a troca da experiência sensorial pela abstração é uma etapa importante no caminho de "se Humanizar", o museu, por seu lado, reaviva os sentidos/experiências sensoriais e limita a fantasia/abstração. Seria então um lugar apropriado para o caminhão...



Fotos e reportagens:
http://www.faz.net/aktuell/feuilleton/anschlag-in-berlin-lkw-koennte-ins-museum-kommen-14603911.html
http://www.jo-igele.de/7-highlights-fuer-deinen-wochenendtrip-nach-bonn/

http://www.dw.com/de/nach-berlin-anschlag-gehört-der-terror-lkw-ins-museum/a-36996487
http://www.tagesspiegel.de/kultur/breitscheidplatz-wir-sind-so-frei-und-unverschaemt/19209716.html




Ana Valéria Celestino, mora em Berlim há quase duas décadas, tempo que vem observando as mudanças da cidade. Estudou História em São Paulo e em Berlim, hoje trabalha como tradutora.


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Do que é feito o seu Natal?


Nesta segunda, como é sabido, o fantasma do terrorismo chegou em Berlim. Apesar da seriedade do momento, a única coisa que me veio, foi imaginar como os estrangeiros estariam falando "Breitscheid Platz" e "Gedächtnisskirche"... Senti pena dos locutores deste mundão todo.

Em Berlim o clima está tenso, mas fora as notícias e os programas de entrevistas com especialistas, que parecem repetir tudo o que foi dito depois de Paris, aqui no meu cantinho nada mudou. Não posso dizer o quão inseguro e amedrontado está aquele que pega o trem ou o metrô todos os dias pro trabalho. No fim, mesmo no meio de uma guerra, a vida continua.

Enquanto isso, as autoridades estão desesperadas para entregar um culpado, já existe um suspeito. Os partidos conservadores - principalmente do sul - já começam a falar mal da chegada dos refugiados, antes mesmo da certeza de que o terrorista seria um deles. Os partidos de direita então, estão se servindo como num banquete, e a vida toma seu rumo.


O mais longe que o sol pode chegar, agora só resta a volta.
E a vida continua, e o planeta e o universo continuam, apesar da Humanidade! Hoje, 21 de dezembro, exatamente às 11h44 (horário de Berlim) aconteceu o Solstício. O Menor dia do ano, início do inverno e da volta bem lenta do sol, bem lenta mesmo!

Este momento foi e é importante para muitas culturas, e dele nasceu a ideia do Natal. Segundo o que li, no século 3 depois de Cristo foi criada pelos Romanos a Festa do "Sol Vencedor" - Sol Invictus. Os cristãos, pra contra-balancear, inventaram o nascimento de Cristo, "o sol" que (re)nasce todos os anos. Os de lá vinham com o "verdadeiro sol", os de cá com a "verdadeira luz do mundo". Juntaram o fenômeno astronômico com uma ou outra frase do Novo Testamento para justificar e, mais de 200 anos depois, no Primeiro Concílio de Constantinopla, a festa foi oficializada para todos os Cristãos.

São Nicolaus e os Krampus e as pobres crianças... Feliz Natal!
Chegando aqui mais pro norte da Europa o Natal já recebeu uma outra mistura, precisava mais uma vez abargar outras culturas no seu projeto de catequização. Desta vez foi o São Nicolau, o santo mais popular do lado oriental, que chegou na Europa no século XI , e lá pelo século século XVII foi colocado ao lado de figuras demoníacas da cultura pagã. Essa figuras atendem pelos nomes de Knecht Ruprecht (Alemanha), Schmutzki (Suiça) Krampus (Alemanha Áustria e Italia), Housecker (Luxemburgo) e Zwarte Piet (Holanda). Pelo pouco que sobrou de informação, estas "entidades" tinham como função manter uma certa ordem social. Eles castigavam pessoas da comunidade que teriam agido de maneira excessiva.  Hoje em dia só sobrou mesmo pras crianças, "Se não foi educado, não ganha presente".

E depois veio a "Coca-Cola" e mexeu no Natal e mais num montão de coisas...

foto de 2013: "Quem planta armas, colhe refugiados"


Nikolaus e Krampus em serviço:
https://www.youtube.com/watch?v=6bdHr8Kdocc

Foto:
http://www.nachrichten.at/nachrichten/chronik/OEsterreicher-setzen-weiter-auf-Krampus-und-Nikolo;art58,2049496

Ana Valéria Celestino, mora em Berlim há quase duas décadas, tempo que vem observando as mudanças da cidade. Estudou História em São Paulo e em Berlim, hoje trabalha como tradutora.


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ZUM VERSCHENKEN


      Existe um comercial de cerveja com o jargão "Berlim, você é tão maravilhosa!", o prefeito mais pop da cidade, Klaus Wowereit, disse uma vez: "Berlim é pobre, mas é sexy". Marlene Dietrich cantava:

 "Andar pela rua Madeleine em Paris é magnífico. Passear por Roma em maio, ou a quietude de uma noite de verão, acompanhada de um vinho, em Viena é lindo. Eu, ainda, "sou mais" Berlim, mesmo que vocês riam. Eu ainda tenho uma mala em Berlim" (Ich hab' noch einen Koffer in Berlin).

      Berlim hoje, assim como no início do século 20, é uma das cidades mais "atraentes" do mundo. Apesar de tudo, não voltou a ser tão avangard com era nos anos 20/30 e pelo jeito, a tendência é se transformar lentamente em mais uma cidade "tipicamente alemã", o que mais ou menos quer dizer: "toda arrumadinha e organizada".

      Mas ainda há resistências e uma delas é o seu lado alternativo e pobre. Eu espero, de todo coração, que Berlim nunca deixe de ser pobre - é a cidade mais violenta, mais problemática, mais "difícil" do país - e talvez por isso, a mais libertária, a mais tolerante, a mais bonita até em sua feiura. Por que não?! Berlim é sexy!

Hoje na rua só tinha lixo! Uma imagem que não é para turistas

      Talvez o visitante brasileiro esteja à procura da boniteza, da riqueza, de tudo "arrumadinho e no seu lugar", mas muitas pessoas vêm morar aqui justamente para fugir deste "modelo urbano alemão". Muitos estrangeiros estão felizes por estarem aqui, onde o "ter tudo sob controle" - uma das grandes características da cultura alemã - nem sempre dá certo.

      Veja o exemplo da minha rua, e das ruas do meu quarteirão. Uma das minhas vivências desta cidade é o costume de deixar coisas que não se quer mais nas ruas, pra ver se alguém ainda aproveita. Este costume existe em toda a Alemanha é o Sperrmüll. Há alguns anos ainda se achava móveis e objetos bons, que montavam as casas dos estudantes. Nas cidades organizadas existe o dia certo e o local certo para fazer isso. Em Berlim não, fica na rua, o que sobra, depois de algumas semanas, vira lixo e desaparece, graças a ação da BSR.

Cadeiras de escritório, colchões, geladeiras e sofás, viram lixo na calçada.

     Por conta desta desculpa de "alguém aproveita" o povo abusa. É comum se ver geladeiras, colchões velhos, lixo eletrônico de toda sorte abandonados nas calçadas. Tudo feito na calada da noite, porque se forem pegos, tem multa!

      Mas fora os tais abusos, existe sim a cultura do vamos utilizar o que ainda está bom, bem representada nos mercados de pulga. Eu mesma tenho pratos e xícaras antigas, copos e talheres e até um ferro elétrico dos anos 70, lindo!, que foram deixados na calçada. Na calçada a gente encontra livros, cds, roupas, sapatos, cadeiras, cadeiras de escritório, esterilizador de mamadeira, berço, cartões postais antigos, armários, estantes, mesas, mesinhas de cabeceira, roupas, brinquedos...

Caixas de papelão cheia de tesouros ou quinquilharias...
      Aí sempre me pergunto e sempre esqueço de ir atrás da resposta: O que as pessoas fazem com as coisas que não querem mais, no Brasil? O leitor pensaria em parar para revirar uma caixa na rua, cheia de coisas, com um papel colado: "Zum verschenken" (para "dar"), procuraria algo que ele ainda possa utilizar???




















Ana Valéria Celestino, mora em Berlim há quase duas décadas, tempo que vem observando as mudanças da cidade. Estudou História em São Paulo e em Berlim, hoje trabalha como tradutora.












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Berlim do avesso





O que será essa caixa? Vou descobrir...
      Hoje, dando uma volta no quarteirão na minha meia hora de almoço, vi uma das "caixas" que existem nas ruas daqui e que, às vezes, são espaço para lindos trabalhos artísticos. A de hoje tinha um super homem. Não tinha máquina e nem celular para fotografar... faço depois e vou descobrir o que são e para que servem essas "caixas" na calçada. Achei essa por aqui, no seu "estado natural".  A linha amarela é uma intervenção também, marca o espaço preferido do berlinense para mijar...



      Bom, e o super homem me causou uma enxurrada de associações até voltar ao Brasil e a situação a atual do país. Digo "voltar", porque é um pensamento constante.  Será que associação rolou quando lembrei da música de Gilberto Gil?

      E pensando no Brasil e pensando no Brasil e no que tá acontecendo, juntando com o que escrevi aqui na vez passada e ainda mais uma reportagem sobre o péssimo estado da "casa da Merkel"(Bundeskanzleramt), que já está quase caindo aos pedaços depois de apenas 15 anos de construção. Me vem a convicção  de que a doutrina política econômica coroada e posta em prática pela "Dama de Ferro" inglesa e do "Ator" americano no idos dos 80  está fazendo a Alemanha chegar mais próximo do Brasil do que o contrário.

      Na reportagem sobre  os alemães se colocam espantados, o título é "desaprendemos a construir?", e não se perguntam o que acontece. Logo dou uma risadinha e automáticamente mato a charada: "super faturamento de material de terceira...", "é com obra que se ganha muita grana..." No final do artigo há uma sutil constatação do que conhecemos muito bem.

Os Gêmeos em Berlim
      E não fica por aí a aproximação, a tesoura está se abrindo cada vez mais, e os jornais escrevem reportagens de que agora, quem nasce pobre está condenado a continuar pobre e quem nasce  rico está condenado a ficar cada vez mais rico. As filas crescem no postos de distribuição e comida - organizados por entidades beneficentes. Vejo velhinhos e não velhinhos recolhendo garrafas para pegar a grana do casco, muito mais gente pedindo no metro, e não são estrangeiros.

Caramba, há séculos e séculos o homem é o lobo do homem, e isso não muda!

É claro, a comparação entre os países é quase injusta, o que rola no Brasil já foi nomeado por especialistas como o  "capitalismo selvagem de fato".  Uma grande diferença é a escravidão, que marca até hoje as estruturas morais da nossa sociedade. Não nos causa estranhamento e não identificamos o comportamento escravocrata de ambos os lados na relação patrão e empregado, independente até do problema da cor da pele. Também não nos incomoda tanto ver gente morando na rua ou vivendo como bichos. Ver gente pobre ser espancado e mal tratado também não... Por que será?

Por que será que hoje, quando um Governo anuncia que vai jogar milhões de pessoas na miséria, sem educação, sem saúde, sem perspectiva, não são todos que vão para as ruas dizer não a tamanha barbárie? Por que será que um político não hesita em afirmar, na frente de uma câmara, que quem não tem dinheiro não estuda e ponto final e tá bom assim.
Por que será?


A reportagem sobre a casa da Merkel
http://www.sueddeutsche.de/kultur/architektur-deutschland-hat-das-bauen-verlernt-1.3198692

fotos:
http://www.berlin-du-bist-wunderbar.de/2015/05/street-art-in-berlin-35.html?m=0
http://just.blogsport.de/2010/07/27/berlin-tourism/


Ana Valéria mora em Berlim e observa a cidade há quase duas décadas, estudou história e trabalha como tradutora.

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Vamos passear no parque?




        Em Berlim existem vários parques, além de praças e ruas bastante arborizadas. No verão a cidade é verde, no outono dourada. Entre os parques, o mais famoso é o Großer Tiergarten, localizado entre o Portão de Brandenburg e o zoológico. O parque se estende por uma área de 3 km de "comprimento" por 1 km de "largura". O coração verde de Berlim, com muitos gramados e curiosidades, oferece uma grande possibilidade de descanso e lazer. 

       Quase no final dele esta o Obelisco da Vitória com o anjo dourado (a "Elsa Dourada", como chamam os berlinense) que fica no centro da rotatória onde se cruzamento duas grandes avenidas que apontam para os quatro cantos da cidade. A principal delas, que corta o parque em seu comprimento, é a 17 de Junho. Esta avenida é palco de muitas festas de rua e é ali também que se instala o telão para o público acompanhar os jogos de futebol da seleção alemã. 

Tiergarten 1833, Berlim.
         No século 16 era ali a floresta de caça do imperador. No final do século 17 foi transformado numa área de lazer para a população. Com o passar dos anos recebeu várias intervenções, sendo a principal delas na década de 30 do século 19, quando foi transformado num parque no estilo inglês.
     Durante a Segunda Guerra além da enorme destruição pelas bombas, todas as árvores foram cortadas para aquecerem as casas dos berlinenses. No pós Guerra foi usado por um tempo como área de cultivo de batata e outros legumes e, com o plantio da primeira árvore iniciou-se, em 1949,  a reconstrução do parque. 

Foto de Otto Donath, de 1. de julho de 1946. Ai fundo o Reichstag.
        Uma pequena coleção de luminárias de rua antigas de cidades alemãs, o monumento aos soldados russo mortos na Segunda Guerra, um lago onde se pode alugar um barco e remar um pouco, alguns jardins, cantinhos perfeitos para uma pausa, como a Luiseinsel, ou o Jardim das Rosas ou o Jardim Inglês, e estátuas como a Venusbassin são algumas das "muitas coisas" a se visitar no parque. 

A Venusbassin na frente do "Lagoa Dourada", reconstruída em 2009
   Uma outra boa ideia é simplesmente se deixar "perder" por ele, descobrir seus muitos detalhes, explorar a paisagem romântica oferecida pelas águas que cortam todo o parque e o charme de suas pequenas pontes. E no fim, quem sabe fazer um pic-nic nos seus vários gramados embaixo de uma de suas árvores frondosas.

Löwenbrücke, construída em 1838.


fotos
https://de.wikipedia.org/wiki/Großer_Tiergarten


Ana Valéria mora em Berlim e observa a cidade há quase duas décadas. Estudou história no Brasil e na Alemanha, mas cabou mesmo trabalhando como tradutora.




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Festa é festa e cada um faz a sua




      Agora no face uma amiga pediu para eu comentar um artigo de uma blogueira que vive na Alemanha.  O artigo critica as festas eventos de crianças que acontecem por aí, compara os costumes que vivencia por aqui e descreve festa de criança de uma maneira que até parece legal. Gosto de ler estes testemunhos, porque além deles falarem sobre a experiência vivenciada, falam também de seus autores. No artigo a moça me pareceu meu romântica na sua leitura do jeito da comemoração teutônica... Então vou apresentar a minha versão:

      A cultura de festa infantil por aqui é outra, bem diferente da do Brasil, de maneira geral, não só comparando com a "festa ostentação". Como disse a blogueira, a festa do primeiro ano da criança não é importante. Quando a criança tem amigos no jardim de infância ou na escola, os pais convidam estes para brincar em casa no dia do seu aniversário, ou fazer qualquer programa fora de casa, como ir ao cinema ou ao museu - lá as crianças têm atividades e comem um pedaço de bolo.
      Só as crianças são convidadas. Os pais acham ótimo, porque não precisam ficar procurando assunto para conversar uns com os outros e têm ainda algumas horas "livres". Um critério frequente, o número de convidados é o mesmo dos anos da criança. A criança já começa a ter de escolher os "amigos de verdade" e deixar outros de lado. Aprende assim uma cultura de exclusão, que mais tarde vai dificultar o jogo de cintura da convivência social... E vai explicar talvez a dificuldade de agregar que muitos têm por aqui.

foto promocional de programas de aniversário, Estúdio Babelsberg

      A blogueira viu simplicidade na festa (comparando com a festa ostentação, é um alívio!) e simplicidade como forma de mostrar que o que importa é o sentimento...  Eu vejo a "redução ao mínimo necessário" na festa. Vejo falta de vontade de se ter trabalho demais e, mesmo reduzindo ao mínimo, muitos veem como um "stress"(o termo é deles). Vejo a falta de paciência em aguentar muitas crianças em casa ,e se for num apartamento, então é pior.
      Aqui não se canta "Parabéns pra Você", a festa não tem um ápice. E se eles cantam não é vinculado com o apagar velas. E se eles cantam, só tenho ouvido em Inglês! A festa tem hora marcada para começar e terminar e todos são pontuais para ambos. Quando ela acaba os pais estão aliviados por apenas alguns momentos, porque logo lembram que no próximo ano tem de novo.

Foto promocional de festa infantil
      Eu sinto muito pelo alemães, nunca vão saber que não há nada mais fantástico para adultos e crianças do que uma boa festa de aniversário. Crianças de várias idades e tamanhos vão brincar - ou não - juntas. Adultos, com ou sem crianças, vão conviver e se divertir juntos. A criança aniversariante se sente feliz em ver pessoas e mais pessoas chegando por causa dela. Os preparativos - sim cansativos - vão fazendo dentro da casa e da família o clima de comemoração já dias antes da festa. A criança vê, percebe, e espera com entusiasmo o "seu dia". E não tem nada mais fantástico do que observar os olhos de alegria de uma criança ao ver tanta gente (mesmo que sejam só 15) em volta da mesa, iluminados apenas pela luz da vela, cantando em sua homenagem.

    Mesmo concordando com a crítica da blogueira - festa ostentação é decadência e o negócio tá feio - eu estou bem contente de ter sido criança no Brasil e também contente por passar dias aqui em casa enrolando brigadeiro, fazendo coxinha e bolo de aniversário e proporcionando ao meu filho uma festa bem brasileira. E até diria, entre a festa alemã e a ostentação brasileira iria preferir a segunda. Ao menos tem comida...


Aqui o texto da blogueira
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/03/o-exagero-das-festas-infantis-e-uma-ignorancia-peculiar-do-brasil.html

fotos
http://www.filmpark-babelsberg.de/de/kindergeburtstag.html
http://www.hamburg.de/kindergeburtstag/





Ana Valéria mora em Berlim e observa a cidade há quase duas décadas. Estudou história no Brasil e na Alemanha, mas cabou mesmo trabalhando como tradutora. 








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Esse Lixo é para Sempre




Gorleben é a região para onde vai o lixo atômico produzido na Alemanha e no norte da França. Vira e mexe tem ativista se acorrentando na linha do trem que faz o transporte do lixo para o depósito, construído há alguns quilômetros da cidadezinha. A história é antiga, desde 1986 vem se "estudando" a possibilidade de enterrar para sempre todo este lixo num domo de sal na região. Todo alemão que ouve o nome "Gorleben" já sabe do que se está falando.

Fale "Gorleben" para um alemão, e ele vai pensar "energia atômica".

Outra referência na questão atômica, mas desta vez no combate e crítica à ela, é a Anti-Atomkraft-Bewegung, o Movimento Anti Energia Atômica, que existe há mais de 40 anos. Sua bandeira amarela com um sol vermelho sorrindo - Será que foi o avô do smiley? -  é conhecida em vários países, onde ele é ativo.  

O Movimento organizou ontem uma caravana de tratores para protestar contra a decisão da  Endlagerkomission, Comissão de Armazenamento Definitivo, que apresentou sua conclusão para o problema do armazenamento do lixo atômico e não descartou o domo de sal de Gorleben, apesar das críticas e das conhecidas dúvidas sobre a sua segurança. 

Ao fundo a Siegssäule, o Obelisco da Vitória.

 E foi por isso e assim que a minha cotidiana manhã de terça se transformou num passeio turístico da cultura de protesto. E ainda com um tema que, para mim, é "típico de alemão" e ainda "típico" dos anos 80 e 90: os protestos contra a energia atômica. Não nos esqueçamos que foram os alemães que nos venderam aquelas duas "maravilhas" lá de Angra dos Reis... 

Ao ser surpreendida no meio do meu caminho de volta para casa com um desfile de tratores, decidi ir acompanhando o protesto para ver onde e no que ia dar.  Foram parar na frente do Ministério do Meio Ambiente. Ali esperava por eles um grupo com bandeiras e faixas. 

Bandeiras do Movimento Anti Energia Atômica, ao fundo a cúpula do Reichstag.

 Fiquei observando o amontoado de poucas pessoas, talvez umas 100, contando com os jornalistas, e o mais jovem parecia já ter prá lá dos seus 40 anos. Ver pessoas mais velhas ativas, organizadas numa luta na qual devem estar engajados desde o final dos anos 70, me fez pensar em duas coisas, a primeira positiva, na força inabalável destas pessoas e na lição de cidadania que dão a todos nós. A segunda negativa, há quantas décadas os cidadãos estão lutando em vão pela segurança de suas vidas contra o "progresso tecnológico"...

"Quando o injustiça se torna lei, a resistência é obrigatória." (trad. livre)

E dando mais um passo, pensei na construção da ideia de progresso com algo bom, positivo. Pensei no Brasil: "Ordem e Progresso" é o lema da nossa bandeira. De repente "progresso" pra mim virou sinônimo de muita coisa ruim, de destruição e "ordem" de repressão e perda de liberdade...


E aqui acabou a caravana, em frente ao Ministério do Meio Ambiente.




Ana Valéria mora em Berlim e observa a cidade há quase duas décadas. Estudou história no Brasil e na Alemanha, mas cabou mesmo trabalhando como tradutora. 



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