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Olhe para o meu boné

 




Juazeiro do Norte, Ceará. Na Rua do Horto, subida que parece interminável quando somada ao sol escaldante, casas justapostas. Na ausência de quintais e de vazios entre as construções, a rua e a calçada se transformam em um misto de espaço de descanso e de compartilhamento daquilo que poderia vir a ser trancado na fortaleza que é toda casa.

Ao fim deste percurso, a imagem que se anunciava acima das montanhas no momento da partida: o homem, o mito, o padre e, um dia, o prefeito, Cícero Romão Batista. Tão impactante quanto a figura do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, com dez metros a menos e construído trinta anos depois, seus braços não estão abertos. No lugar da recepção acalorada e que faz lembrar a crucifixão, o Padre Cícero é apresentado de modo retilíneo como uma coluna – e haveria melhor apresentação para um homem que é símbolo do poder?
Uma mão segura um chapéu, como um ato de cumprimento, enquanto a outra apoia o corpo sobre uma bengala; falecido aos noventa anos, Cícero aqui é a personificação da experiência e lança seu olhar para a paisagem desta cidade cuja existência deve muito ao seu tino. Ao redor da base deste monumento, sobre seu corpo, milagres são procurados: nomes próprios, desejos e agradecimentos se misturam dando forma a um livro a céu aberto da fé.

À frente desta escultura, algumas estruturas de ferro que lembram arquibancadas. Homens com suas máquinas fotográficas (um dia lambe-lambe e agora todas digitais) circulam o espaço e oferecem seus serviços. Não resisto e pretendo levar para casa um cartão postal personalizado, ou seja, um retrato fotográfico meu presente nesse ponto turístico. Subo numa das estruturas e, assim como um Tiziano coordenava e inseria o retratado em um esquema visual, tenho meu corpo dirigido pelo fotógrafo.

“Mantenha o corpo reto”, ele diz. Ajusta a lente e depois pede: “Agora olhe para o meu boné”. Claro, como poderia ter uma imagem minha iluminada pelo olhar seguro de Cícero evitando o contato direto com o espectador? Na simulação de sua postura confiante, duas poses são tradicionalmente possíveis: em uma foto ergo a minha mão direita, como se tocasse o homem santo. Na outra, me coloco abaixo dele e sou abençoado. Em dez minutos elas já estão impressas, portadoras de bordas verdes e de um texto que não deixa dúvidas de que estes retratos foram produzidos em Juazeiro do Norte em data específica.

Posso não ser nada religioso, mas se existe algo em que acredito é no poder das imagens e na capacidade de que nós, humanos, temos de atribuir respeito e sentido a estes espelhos de nós mesmos – seja em caráter monumental e público, seja em um frágil pedaço de papel postado a um ente querido. 






Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Doutorando em História e Crítica da Arte pela UERJ. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011) e "Cinema pós-iugoslavo" (Caixa Cultural de São Paulo, 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP) e da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).
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Quando a cozinha vira açougue



http://www.youtube.com/watch?v=EY9_DMYKoDk


“Escravas da vaidade”, longa-metragem de 2004, dirigido por Fruit Chan, traz duas personagens principais. De um lado, uma mulher com uma obscura biografia trabalha fazendo bolinhos em sua casa. Do outro, uma atriz de televisão que enfrenta o ostracismo após o auge de sua fama e que enfrenta a passagem do tempo. Na busca por um elixir da juventude, a segunda personagem visita a casa da quituteira. O que começa em um misto de humor e suspense dá corpo a um cinema do absurdo.

Após as primeiras refeições, somos apresentados à rotina ausente de glamour da personagem: numa casa enorme e em reforma está presente também um marido que a trai com mulheres mais jovens. Saber sobre esse fato apenas contribui com sua ânsia pela juventude. Enquanto isso, a cozinheira é mostrada diversas vezes se deslocando entre Hong Kong e a China, sempre munida de uma pequena marmita. Curiosamente, a personagem passa por um hospital onde parece que foi buscar algo que daria sentido às suas viagens...

O conteúdo vermelho presente nos quitutes é revelado. Mais do que se tratar de carne humana, estamos a observar o fatiar de algo mais sagrado: é matéria advinda de abortos, ou seja, fetos. Em dado momento, a cozinheira descreve para sua cliente que os fetos ideais são aqueles do segundo trimestre, pois já começam a apresentar parte da estrutura óssea, algo nutritivo e importante para o rejuvenescimento. O estômago do espectador embrulha.


Neste sentido podemos afirmar que mais do que mostrar um ambiente de culinária, “Escravas da vaidade” se transforma em um filme ambientado em um açougue doméstico. Aquele cutelo, na verdade, fazia espirrar o sangue de algo ainda em processo de formação biológica a caminho de ser expelido do ventre de uma mulher. Aquilo não era um molho de tomate, mas sangue humano. Para ter uma aparência mais jovem (ou seja: não se trata de voltar no tempo, mas parecer com menos idade – questão de superfície, não de núcleo), qualquer esforço é pequeno.

Em dado momento, ao ter a confirmação efetiva de uma traição de seu marido através da gravidez de sua amante, a personagem ávida por bolinhos se pergunta: e se este feto que se desenvolve em seu corpo fosse cozinhado e ingerido por ela? Incapaz de engravidar, o ato de se fatiar, mastigar, engolir e ter a proteína da carne de um produto do esperma de seu marido em sua corrente sanguínea é uma prova de seu desespero e insegurança.

Quando nos convém, o ofício do açougueiro é rapidamente aprendido. De médico e louco, todos temos um pouco.










Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Doutorando em História e Crítica da Arte pela UERJ. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011) e "Cinema pós-iugoslavo" (Caixa Cultural de São Paulo, 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP) e da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).

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"Call girl"





Sem trilha sonora, uma câmera na mão acompanha os movimentos da personagem central. Expressão séria, olhar compenetrado e atitudes objetivas. Poucas falas saem de sua boca que mais responde do que pergunta. O sujeito dá rapidamente lugar ao objeto: uma prostituta de luxo, uma “call girl”, como um dos títulos em inglês do filme explicita, se trata de uma jovem que tem consciência em torno da sua atratividade sexual e o explora como profissão.

Sonhos não faltam: um apartamento, uma vida mais confortável em Ljubljana, capital da Eslovênia, e distante do seu passado provinciano. Um acontecimento imprevisível, um desvio de percurso, porém, faz com que a certeza ceda espaço a uma expressão de desespero. A confiança no presente e a projeção para o futuro são rapidamente substituídas por um retorno à família e a mais uma tentativa de se construir um porto seguro impossível. No lugar deste, os não-lugares proporcionados pelos transportes públicos: o trem,  o ônibus, o táxi e a consciência de que se é mais um na multidão. Planos aéreos da cidade são contrapostos a imagens em primeiro plano do rosto preocupado de nossa personagem.

Uma vez que ela tem sua vida ameaçada, muda radicalmente seu comportamento e retorna, tal qual uma "filha pródiga", às suas origens. O contato com o pai e a tentativa de construir laços com a mãe são fugas temporárias da capital, outrora promissora e intensa, e agora um labirinto para gatos e ratos. Todo momento pode ser o último e a sensação de culpa é latente. Só resta a ela acender quantos cigarros forem necessários e aguardar a passagem do tempo.

“Slovenian girl” se interessa pelos microuniversos que podem vir a ser encontrados na Eslovênia contemporânea. A guerra e a Iugoslávia enquanto tópicos sequer passam perto desta narrativa que, em contrapartida, mostra um processo de “internacionalização” do país. Não à toa, a “eslovena” do título cursa uma graduação em inglês e tem uma clientela majoritariamente estrangeira. Poderíamos interpretar esse dado como uma metáfora para a posição que o país ocupa atualmente, ainda marginal quando pensado em relação à Europa enquanto território e constructo cultural?





Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011) e "Cinema pós-iugoslavo" (Caixa Cultural de São Paulo, 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP).
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Refletindo sobre uma gravura de Honoré Daumier




Uma movimentação intensa de linhas. Diversas direções, diversas espessuras, diversos preenchimentos. A litogravura de Daumier, de 1852, mais parece um desenho a lápis-de-cor preto, tamanho a destreza com que as mãos do francês trabalham sobre o espaço do papel. Nenhum contorno das figuras é eternizado; estas possuem uma tensão, parecem estar a se desfazer – se assemelham a uma animação em movimento 2-D. O espaço do Salão representado é todo rascunhado. As molduras ao fundo são meras molduras, cujas pinturas evaporam devido à justaposição de planos das figuras que estão à frente.

Os rostos têm um quê de caricatural – o estranho nariz do homem que se desataca na composição, quase ao centro, é bom exemplo disso. Os corpos parecem se desintegrar próximos aos seus quadris; o espaço do papel acaba e Daumier preenche alguns espaços-limite da composição com o vazio. Todos se deparam com quadros. Diferentes reações são apresentadas: olhares blasés, um olhar animado, um olhar de espanto e um homem de costas a contemplar – qual seria sua reação? Estando ele contra o observador, me coloco em seu lugar e projeto minha própria expressão facial em seu rosto.

O artista trata de esconder outro dado da imagem: a pintura que as quatro figuras principais observam. Inclusive poderíamos nos perguntar se de fato eles observam a parte frontal da moldura nos mostrada por trás, devido à sua dissonância de direcionamento de olhares. Estaria esta moldura apenas simbolizando o objeto-chave dos Salões, o objeto artístico? O próprio título da gravura guia nossa leitura – “Posam de connaisseurs”, ou seja: eles não o são, apenas se fazem de. Daí não seria espantoso levantarmos a hipótese de que na verdade nenhum quadro poderá estar sendo observado por estes possíveis nouveuax riches, emergentes burgueses.

De qualquer forma, as frases inseridas abaixo da composição fazem parte da obra. Ajudam a construir nossa leitura e ajudam a erguer o sentido proposto por Daumier. Discussão levantada desde o Renascimento, sutilmente apontada já por Giorgio Vasari (num paragone entre Michelangelo e Tiziano) e Giovanni Pietro Bellori, mas que teve como um de seus maiores debates a discussão da Academia de Pintura da França, entre Rubensnistas e Poussinistas. Argumentações essas que no século XIX voltam à tona, entre Delacroix e Ingres, colore e disegno. Romântico e acadêmico. Anticlássico e clássico.

Daumier propunha com obras como esta, veiculadas em populares jornais da época, críticas em torno do campo da arte e da cultura, geralmente ridicularizando artistas e comportamentos dos frequentadores dos recém-instaurados Salões. Com seus traços rápidos e sua acidez crítica, a postura de Daumier condizia com a postura crítica sugerida por Charles Baudelaire em sua crítica ao Salão de 1859: breve, mas complexa e, ao mesmo tempo, não podendo ser diferente por dizer respeito a "... esse gênero de mercadoria tão fastidioso a que se dá o nome de Salão...".


Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (realizada na Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011), o Festival Brasileiro de Cinema Universitário, a Mostra do Filme Livre e o Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora. Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP). Realizador de curtas-metragens como "Boiúna" (2004), "A respiração" (2006) e "Preguiça" (2009).
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Goeldi – o encantador das sombras

 


sem título, circa 1925, sem assinatura
xilogravura
12,5 x 12,5 cm
Coleção Hermann Kümmerly

Osvaldo Goeldi retrata a desintegração social provocada pela urbanização desordenada do Rio de
Janeiro dos anos 1930/40. “Cena urbana” exibe a agitação da cidade com seus grandes edifícios.
Fundamentalmente, suas gravuras nos falam dos desencontros e da solidão no moderno Rio de Janeiro dos
anos 1930/40. Seus homens são sempre solitários.
Muitas vezes encontram-se sozinhos na cena, por vezes abandonados à própria miséria, como o mendigo de coração vermelho, deitado diante de um enorme casario, impotente em sua condição de total abandono (sem título, circa 1937, assinada, xilogravura a cores, sem numeração, 17,3 x 21,8 cm, Coleção Ary Ferreira de Macedo). Mesmo os retratados com outros homens são sujeitos solitários que vivem na multidão - solitários noturnos a vivenciar o drama do homem moderno, que, apesar, ou justamente por causa dos avanços da tecnologia e da civilização, está fragmentado. Exemplar desse desencontro entre homem e mundo é a gravura que mostra em “primeiro plano” um guarda-chuva abandonado, a partir do qual dois sujeitos se afastam.


sem título, circa 1937
xilogravura, 25 x 24,5cm
impressão póstuma por Reis Júnior, 1976
Coleção Banco do Estado do Rio de Janeiro

Como artista de tendência expressionista, Goeldi tem como um de seus temas a pobreza e a miséria
da gente humilde que vive sob as condições precárias dos bairros pobres com suas paisagens devastadas.

sem título, circa 1950, assinada
xilogravura, sem numeração; 20,8 x 26,9cm
gravura premiada na I Bienal de São Paulo
 
 
 
 
 
 
 
 
Cenas noturnas e silenciosas sugerem a personalidade introspectiva do artista, que não deixa de experimentar sentimentos opostos e contraditórios, como o de liberdade e paz em oposição ao medo e terror. Daí a opção, em várias ocasiões, pelos urubus, e o sentimento de repulsa por eles provocado, capaz de produzir imagens instigantes e de grande tensão psicológica.
 
 
sem título, circa 1925, assinada
xilogravura
14,8 x 14,8cm
Coleção Hermann Kümmerly


 
 
 
 
"Abandono e esquecimento formam o eixo do trabalho de Goeldi; latas derrubadas, cães vadios, móveis ao relento. No entanto, pelo fato mesmo de não serem lembradas, as coisas parecem aqui ainda preservadas da mesquinhez, cheias de mistério e de potência. Aquilo que foi deixado de lado está inteiro, pronto para ser acionado, e o vento que bafeja essas gravuras quer acordar os homens, bichos, lugares, chamando-os à vida. Sua afeição, no entanto, não pode ter a solidez e clareza objetiva de quem os esqueceu. Daí o crepúsculo contínuo e sempre renovado desses trabalhos.


(...) No entanto, encantamento e suspensão caracterizam também essas gravuras e desenhos. Isso vem, creio, da intensa analogia formal entre seus elementos. Cheios são vazios, casas são ruas, urubus são guarda-chuvas, as janelas nos olham. Tudo é meio assemelhado a tudo, bafejado pelo mesmo sopro de vida, as formas ecoando discretamente umas nas outras, como se ainda não tivesse se formado de todo. Essa individuação incompleta faz grande parte da originalidade de Goeldi, e permite que as distorções expressionistas que o influenciaram abdiquem de seu desespero. O mundo de Goeldi é um mundo em suspensão, seus habitantes ainda despertam e se procuram, e se caminham para a morte o fazem solidariamente. Daí a calma de sua tristeza, onde abandono e comunhão convivem". (RAMOS, Nuno. Para Goeldi. São Paulo: AS Studio,1996. p. 17-18).


CHUVA
circa 1957, assinada
xilogravura a cores, 2/12
22 x 29,5 cm
Dia 21 de julho, o Centro Cultural Correios inaugurou a exposição , que dá partida as homenagens pelo cinquentenário da morte do artista carioca, Oswaldo Goeldi (1895-1961). A mostra, sob a curadoria de Lani Goeldi, sobrinha neta do artista, oferece ao público um amplo panorama de sua trajetória artística e pessoal. Curadora e responsável pela difusão e preservação da obra e da memória de Oswaldo Goeldi, Lani Goeldi  reforça que a exposição é uma das maiores já realizadas sobre o artista:

“O cunho desta mostra é apresentar, principalmente para as novas gerações, o trabalho e a poética de um
dos artistas mais importantes da história da arte brasileira. Nosso objetivo é expor o máximo de obras e
informações, traremos muito material inédito iconográfico e documental que está sendo catalogado e
restaurado pelo Projeto Goeldi em parceria com a Associação Oswaldo Goeldi”
Além de grande xilogravurista, desenhista e ilustrador, Goeldi era admirado por sua personalidade
marcante e sua atividade de professor. Entre seus discípulos estão Lívio Abramo, Samico, Newton
Cavalcanti, Darel Valença Lins e Anna Letycia. Foi o responsável por todo um trabalho de formação de
gravuristas em madeira no Brasil no século 20. Uma de suas discípulas, Anna Letycia, exaltava suas
qualidades em aula:

“Goeldi era um professor completo. O professor que ensina só a técnica é apenas um bom artesão. O bom
artista, que é professor, dá um pouco mais do que técnica.”
Embora tivesse um temperamento reservado, procurava estar sempre ao lado de amigos do meio artístico e
intelectual, como Iberê Camargo, Carlos Scliar, Anibal Machado, Portinari, Bandeira de Mello, Carlos
Drummond de Andrade, Di Cavalcante, etc. Era avesso a modismos e económico nas palavras. Em 1957, em entrevista a Ferreira Gullar para o Jornal do Brasil, declarou:

“(...) Fala-se muito hoje em inovações, em abrir caminhos, etc...Mas não se deve confundir experimentos
técnicos com a verdadeira inovação. Todo artista realmente criador inova, e isso porque ele amplia seus
meios técnicos na proporção de suas necessidades de expressão. Só essa inovação é legítima – a inovação
que é ditada por uma necessidade interior. Inovar por inovar não tem sentido. Sei de artistas que
passaram a vida toda inovando e não puderam fazer mais que ‘inovações’ (...)”

"Goeldi - o encantador das sombras", segundo a curadora, é a maior mostra já realizada sobre o artista e
reúne cerca de 120 obras, além de livros, ilustrações, estudos, registros e dois vídeos, um realizado
pela artista Lygia Pape e outro produzido pelo cineasta Allan Ribeiro com depoimentos de Anna Letycia,
Darel Valença Lins, Noemi Ribeiro, Rubem Grillo e Adir Botelho, alem de uma cronologia ilustrada do artista. Também será remontado seu atelier com objetos pessoais e ferramentas usadas em seu dia-a-dia.


O Centro Cultural Correios fica à Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro, Rio de Janeiro - RJ Tel. 2253-1580

Fernanda Lopes Torres, historiadora da arte, graduada pela ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial)
da UERJ, mestre e doutora em História pela PUC-Rio, pesquisadora de arte da Multirio (Empresa Municipal de Multimeios) escreve às quintas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.
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Férias com Anton Tchekhov


Sempre gostei do mês de julho. Luz bonita, temperaturas amenas. Guardo até hoje a lembrança das férias de colégio, as melhores férias, eu achava, já que as do verão eram muito longas. Eram como uma renovação de fôlego bem no meio do ano.
    Já há muitos “julhos” não tenho férias, mas fica nesse mês sua memória – a lembrança de um revigoramento imprescindível, que, se não pode ser vivenciado em sua “plenitude” de férias, pode e deve ser buscado em nosso cotidiano, cada vez mais atribulado. (Observação talvez óbvia,  mas muitas vezes esquecida, ao menos por mim...).
    Segunda-feira passada, dia 5 de julho, exausta ao fim do dia, e depois de muitas e muitas noites de poucas horas de sono, estava eu a esperar o ônibus que me leva para casa, em Petrópolis, no abafado terminal rodoviário do centro do Rio. E ali, naquele lugar inóspito, pude experimentar um daqueles breves – e imprescindíveis – revigoramentos. Saquei da minha imensa bolsa caderno da última Folha de São Paulo em que estava publicado um pequeno conto de Tchekhov. Com humor e ironia o escritor russo lucidamente escreve da solidão daquele homem oitocentista, há algum tempo editor de sua própria história, sem Deus tampouco o Diabo a guiá-lo. A conversa entre o bêbado e o diabo, supostamente  fantástica, se mostra no texto tão real quanto minha situação ali naquele banco do terminal de ônibus... Logo de início esboço um sorriso – o escritor me conquista ao trazer à tona o diabo como um “jovem de aparência agradável, de cara preta como botas, focinho e expressivos vermelhos olhos”. Um pobre diabo, logo ele se revela, a nós, pobres homens que, no entanto, têm a capacidade de reconhecer nossa miséria com a grandeza de um  Tchekhov. (ou de um Goeldi, artista brasileiro que retrata com precisão o Rio de Janeiro dos anos 30/40/50 através de seus personagens os mais marginais, solitários, acima de tudo, e, por isso mesmo, é capaz de exibir a realidade dessa cidade, e talvez do Brasil, hoje).


Conversa de um bêbado com um diabo sóbrio, por Anton Tchekhov (tradução Paulo Bezerra)


                                                              [BÊBADO SONHANDO]
                                                              sem título, circa 1930, assinado, nanquim e aguada
                                                              23,5 x 21,5cm, título atribuído por Béatrix Reynal
                                                              Coleção Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro


    Lakhmátov, ex-funcionário de intendência e secretário de colegiado aposentado, estava à mesa em sua casa bebendo o 16º cálice e pensando na fraternidade, na igualdade e na liberdade. Súbito, de trás de uma lâmpada, olhou para ele o diabo ... Mas não se assuste, leitor. Você sabe o que é o diabo? É um jovem de aparência agradável, de cara preta como botas, focinho e expressivos vermelhos olhos. Tem chifres na cabeça, embora nem seja casado. Usa penteado 'a la Kapul'1. Tem o corpo coberto por uma lã verde e cheira a cachorro. Abaixo da espinha balança o rabo, que tem uma seta na ponta... Em vez de dedos tem unhas, em vez de pés, cascos de cavalo. Lakhmátov ficou meio confuso ao ver o diabo, mas logo se acalmou quando se lembrou de que diabos verdes têm o tolo hábito de aparecer a todos aqueles que tomaram um trago.
    - Com quem tenho a honra de falar? - perguntou ao intruso.
    O diabo ficou confuso e abaixou os olhinhos.
    - Não fique acanhado – continuou Lakhmátov. - Chegue-se mais perto ... Sou um homem sem preconceitos, o senhos pode ser sincero comigo... Fale como amigo ... Quem é o senhor?
    O diabo chegou-se indeciso a Lakhmátov e, encolhendo o rabo, fez uma reverência cortês.
    - Sou o diabo, ou capeta ... - apresentou-se. - Sou funcionário de missões especiais junto à pessoa de Sua Excelência Satanás, diretor da chancelaria do inferno.


[NOTURNO]
sem título, circa 1950, assinada; xilogravura, sem numeração
20,8 x 26,9cm; gravura premiada na I Bienal de São Paulo, 1951; Coleção Museu Nacional de Belas Arte
s
  
- Ouvi falar, ouvi falar. Muito prazer. Sente-se! Não aceitaria uma vodca? Estou muito contente ... E o que o senhor faz?
    O diabo ficou ainda mais confuso ...
    - Propriamente falando, não tenho ocupação definida ... - respondeu ele pigarreando e assuando o nariz na folha de um “Rébus”2. - Antes nós tínhamos ocupação efetiva. Tentávamos as pessoas ... desviávamos do caminho do bem para as sendas do mal ... Hoje em dia essa ocupação, “entre nous soit dit”3, não vale uma cusparada. E, além disso, as pessoas ficaram mais espertas do que nós. Procure você tentar um homem que já aprendeu todas as ciências na universidade, estudou o fogo, a água e os tubos de cobre! Como posso ensiná-lo a roubar um rublo se, sem minha colaboração, você já afanou milhares?
    - É verdade.... Mas, não obstante, você tem alguma ocupação, não?
    - Sim... Hoje nossa antiga função pode ser apenas nominal, mas mesmo assim temos trabalho ... Tentamos damas de classe, impelimos os rapazinhos para a poesia, levamos comerciantes bêbados a quebrarem espelhos. Já em política, em literatura e em ciências não nos metemos há muito tempo ... Nesse campo não entendemos patavina. Muitos de nós são colaboradores de “Rébus”, há até aqueles que largaram o inferno e se tornaram gente... Esses diabos reformados, que se tornaram gente, casaram-se com comerciantes ricas e hoje levam uma vida ótima. Uns se dedicam à advocacia, outros editam jornais, são pessoas muito ativas e respeitadas!
    - Desculpe a indiscrição: quais são os seus vencimentos?
    - Nossa situação continua a mesma ... - respondeu o diabo. - O quadro de funcionários efetivos não mudou ... Continuamos tendo casa, luz e calefação por conta do erário ... vencimentos não recebemos, pois todos somos extranumerários e porque ser diabo é uma função respeitável ... Para ser franco, em linhas gerais se vive mal, ainda que a gente peça esmolas ... Somos gratos aos homens; eles nos ensinaram a aceitar propina, senão já teríamos esticado as canelas há muito tempo.... E assim vamos vivendo de rendas ... A gente fornece provisões aos pecadores e aí ... mete e mão... Satanás envelheceu, está sempre saindo para contemplar a Zucci4, não liga mais para prestação de contas...
    Lakhmátov serviu um cálice de vodca ao diabo. Ele o bebeu e soltou a língua. Contou todos os segredos do inferno, abriu a alma, desabafou, e agradou tanto a Lakhmátov que este o manteve em sua casa para pernoitar. O diabo dormiu no forno e passou a noite inteira delirando. Ao amanhecer escafedeu-se.


                                                          [A MORTE DO GUARDA-CHUVA]
                                                          sem título, circa 1937; xilogravura, 2/3; 25 x 24,5cm
                                                          impressão póstuma por Reis Júnior, 1976; Coleção Banco do Estado do Rio de Janeiro


1 Penteado usado na Rússia no século 19, que deixava as madeixas caindo sobre  a testa. A expressão se deve a Joseph Kapul, tenor francês que cantou na Ópera de São Petersburgo na época de Tchekhov e foi um criador de moda entre os russos.
2 Revista espiritualista  publicada em São Petersburgo na época de Tchekhov.
3 “Cá entre nós”, em francês.
4 trata-se da bailarina italiana Virginia Zucci (1849-1930). Zucci chegou a São Petersburgo em 1885, atuou e, balés de Marios Petipa, nome fundamental na história do balé clássico russo, tornou-se muito popular e, entre 1885 e 1888, integrou o corpo de balé do teatro Mariinski de São Petersburgo, dançando também em Moscou e Odessa.

Fernanda Lopes Torres é pesquisadora e historiadora da arte. Graduada em Desenho Industrial pela ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) da UERJ, tem mestrado e doutorado em História Social da Cultura pela PUC-Rio. Atua hoje como pesquisadora de arte da Multirio (Empresa Municipal de Multimeios) e professora do Instituto de Artes da UERJ, tendo publicado artigos em revistas universitárias e na revista Novo Estudos do CEBRAP.
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Modernismos no Brasil dos anos trinta


No intervalo entre o manifesto antropofágico e sua releitura tropicalista, o Brasil dos anos 1930 vive movimento de unificação cultural, quando se experimenta em escala nacional fatos antes ocorridos no âmbito das regiões. Simultaneamente às importantes transformações políticas que vinham ocorrendo, a classe média ganha espaço político e cultural, o que acaba por  resultar num crescimento de contingente e de poder para o Modernismo. Assim, os modernistas conseguem avançar sensivelmente na ocupação das instituições culturais1. Por exemplo, Lúcio Costa é nomeado para diretor da Escola Nacional de Belas-Artes, o que resulta no incentivo à participação de artistas modernos e na retração – e reação - dos acadêmicos – o que irá transformar a luta pelo controle das instituições culturais num fato importante durante a década. 

Nesse período, retoma seu prestígio de centro cultural o Rio de Janeiro, onde se concentravam intelectuais de todo o país, atraídos quer pela possibilidade de divulgação que ali existia, quer pelas ofertas de empregos em órgãos governamentais. Das mansões paulistas uma política cultural segue para os corredores e salas das repartições culturais. Vivencia-se certa  institucionalização da produção cultural, proporcional à etapa de sedimentação à qual se segue a ruptura modernista dos anos 1920. Apesar de todos os problemas que lhe são interpostos, a arte moderna consegue prosseguir seu processo de afirmação. Nas artes visuais e na literatura, a geração dos anos 30 e 40 desenvolve vários caminhos, sempre figurativos, redefinindo a linguagem artística articulada ao interesse pelas questões nacionais com a elaboração de uma arte de temática social.

Por certo, não se pode, é claro, falar em socialização ou coletivização da cultura artística e intelectual, como bem lembra Antônio Cândido. Afinal, “no Brasil as suas manifestações em nível erudito são tão restritas quantitativamente, que vão pouco além da pequena minoria que as pode fruir. Mas levando em conta esta contingência, devida ao desnível de uma sociedade terrivelmente espoliadora, não há dúvida de que depois de 1930 houve um alargamento de participação dentro do âmbito existente, que por sua vez se ampliou”. Alargamento que pode ser verificado nos campos artístico e literário, nos meios de veiculação, como livro e rádio (que teve grande desenvolvimento), e também nos  estudos históricos e sociais. Tudo isso vinculado a uma nova relação entre intelectual e artista e a sociedade e o Estado, que adota política cultural e educacional como parte de um projeto oficial mais amplo de modernização política, econômica e cultural do país, comprometido com sua independência cultural2. Ao mesmo tempo, assiste-se então à tomada de consciência ideológica de intelectuais e artistas, o que faz dos anos 30 período  de engajamento político, religioso e social no campo da cultura. Mesmo aqueles que não se definiam explicitamente manifestaram na sua obra esse tipo de inserção ideológica.

O momento foi de busca de posicionamento crítico face à chamada “realidade brasileira”. Os “estudos brasileiros” de história, política, sociologia, antropologia apresentam radicalização  crítica em que se destaca, para além da “consciência social”, a urgência de reinterpretar o passado nacional e o aumento do interesse pelos grupos até então menos estudados, como o negro, o índio, o trabalhador rural, o operário, o pobre.  Nessa direção, os recém-fundados cursos superiores de filosofia, ciências sociais, história, letras contribuíram para desenvolver o espírito analítico nos estudos sobre o Brasil, sendo decisiva a contribuição de professores e pesquisadores estrangeiros, temporária ou definitivamente radicados no Brasil, como Claude Lévi-Strauss ou Roger Bastide.

Mais do que em qualquer outro campo cultural, nas artes e na literatura se destacam generalização da efervescência renovadora dos anos 20. Na literatura podemos observar atualizações do que se esboçara nos anos 20, resultando no enfraquecimento progressivo da literatura acadêmica, com a busca de simplificação ou coloquialismo, e a amplificação das 'literaturas regionais' à escala nacional. Na arquitetura, uma espécie de sanção oficial do modernismo correspondia à aceitação progressiva pelo gosto médio, a partir das primeiras residências traçadas por Warchavchik e Rino Levi. A Lúcio Costa e a Oscar Niemeyer foi confiado por Gustavo Capanema o projeto do edifício do ministério de Educação e Saúde, em cujas paredes Cândido Portinari pinta seus murais.


Portinari se apresenta aliás como o artista mais representativo dessa segunda fase do Modernismo. Primeiro artista moderno oriundo da Escola Nacional de Belas-Artes, ele receberá o maior número de encomendas governamentais, sendo o primeiro artista modernista a ser conhecido nacionalmente. Em 1930 o artista volta de viagem a Europa onde entra em contato com a arte moderna, tendendo rapidamente ao Modernismo. Aqui entre nós já existe caracterizado certo espaço moderno, ao qual a pintura de Portinari acrescenta os novos pontos de vista da pintura social. Afinal, “o artista deve educar o povo mostrando-se acessível a esse público que tem medo da arte pela ignorância, pela ausência de uma informação artística”, declara Portinari, para quem “nossos artistas precisam deixar suas torres de marfim, devem exercer uma forte ação social interessando-se pela educação do povo brasileiro”. O Modernismo vive momento de nova síntese, em que os elementos a considerar seriam o espaço pós-cubista, o nacionalismo e a arte social, resultando em pintura mais realista que busca uma comunicação mais imediata. Tal tendência realista não é, porém, exclusiva de nossa produção artística, sendo encontrada na Alemanha e na Rússia,  México e França, como reações diversas à subordinação do movimento Moderno à indústria de artigos de luxo, ao imaginário da máquina, à promessa da Revolução de Outubro.

A historiadora da arte Anna Teresa Fabris considera Portinari figura-símbolo da modernidade possível num país periférico, o que “parece ser uma grave falha para os partidários da modernidade a todo custo, guiados por critérios analíticos de derivação formalista”. Assim a historiadora alude  ao questionamento do caráter efetivamente moderno da pintura de Portinari, feito pelo artista e historiador da arte Carlos Zílio, que reconhece a não-compreensão da espacialidade cubista por parte de nosso pintor.




Sem entrar no mérito dessa discussão formal, gostaria de observar a coexistência de  modernismos entre nós. Por volta de 1938, Portinari realiza murais para o edifício do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Gustavo Capanema. “Pau-Brasil”, “Cacau” e “Borracha” retratam ciclos econômicos através do foco sobre o trabalhador - e não sobre o patrão -, sobre o negro - e não sobre o branco -, como representante da produção. O artista assume assim postura corrente entre artistas e escritores da época, que, aparentemente coaptados pelo Estado, desenvolvem, pela própria natureza de sua atividade, antagonismos objetivos, não meramente subjetivos, com relação à ordem estabelecida. Um ano antes, o pintor Alberto Guignard realiza, por exemplo, “Os noivos”, tela que sugere de modo muito mais sutil uma sociabilidade própria. O firme enquadramento logo anuncia o gênero do retrato junto ao desenho impecável, às cores encantadoras. Enquadramento, no entanto, “montado para ninguém, isto é, para alguém sem nome ou posição, sem sobrenome e – também – sem lugar no panteão dos tipos nacionais”, conforme observa Flávio Rezende de Carvalho em sua dissertação (PUC-Rio, 2007) sobre Guignard. Afinal, um fuzileiro é um fuzileiro, é sua farda. A noiva é a noiva do fuzileiro e pode-se percorrer infinitamente a trilha dessa especulação sem encontrar nada que  incontestavelmente confira um lugar ao casal. Um casal anônimo apresenta a forma característica que o exército (ou marinha) assumem aqui no Brasil: menos um feitio técnico-científico - exigido da organização exército, de uma eficácia diante do inimigo real ou potencial obriga a uma atualização permanente de seu aparato tecnológico -  e mais próximo da função de integrar socialmente os pobres e os negros.

Os noivos, 1937
58 X 48 cm, Museus Castro Maya

Como observa Carvalho, a partir de 1931, o pintor trabalhou como professor de desenho na Fundação Osório que vem a ser, na sua origem, uma instituição de amparo aos órfãos da Guerra do Paraguai. Guerra que vem a ser, aliás, o incidente decisivo na formação de um exército com características específicas, quais sejam, a de “uma força obrigada à modernização em permanente tensão com estruturas oligárquicas estabelecidas. Exército e Marinha – já que se trata de um fuzileiro – são produto dessa guerra e o país inteiro, mais intensamente desde a República, experimentará os efeitos da sua afirmação”. Nessa direção, poderíamos considerar, com Carvalho, o quadro como uma “alegoria ladinamente maldosa da 'conjuntura', uma fina observação de caráter sociológico, antropológico, histórico”. Mas tal constatação não basta para nos aproximarmos da questão de Guignard. Por que um artista como Guignard pintaria essa alegoria travestida de retrato ou vice-versa?

Sigamos então o raciocínio de Carvalho. Antes de qualquer consideração sobre seu significado, a pintura constitui um retrato. Esta sua intenção - problema artístico e filosófico que precede a experiência, e que desde o final do século XVIII passou a ser o problema central da teoria da arte, pois dela nasce a “forma”.  De que conjunto de intenções nasce a forma de Guignard? Por certo não se trata de um projeto nacional como o de Portinari. Afinal, vemos em “Os noivos” “um nacional que necessita de constante reafirmação, como se o Brasil e a cristandade estivessem sempre a um passo de sumir diante de nossos olhos”. Nela vemos um Brasil que necessita de marcas externas da sua identidade, e somente a partir dessa “carência revelada pela abundância”, podemos ligar o projeto de Guignard, sua intenção, a um sentido, ainda assim crítico, de nacionalidade. Definitivamente sua intenção não era a de educar o povo através da pintura, ou exaltar o tipo nacional.

Com perspicácia Carvalho observa algo que sempre senti em relação aos retratos de Guignard:  trata-se de pinturas que parecem sorrir – não são os personagens que sorriem para nós -, como que a compartilhar nossa nova condição de indivíduo. Nessa direção ao autor remete à questão do valor de culto e do valor de exposição de Walter Benjamin, que, por sua vez, remonta à gênese do processo artístico para afirmar que a arte nasceu como valor de culto, quando algumas obras eram então concebidas não para serem vistas, mas para fins mágicos ou religiosos. À medida que o valor de exposição foi-se afirmando, que as obras começaram a ser criadas para serem vistas, o valor de culto recuou, mas não sem luta. A fotografia foi o golpe de misericórdia, mas mesmo ela, ao menos no seu início, manteve um “culto da saudade, consagrado aos amores ausentes ou defuntos. A aura acena pela última vez na expressão fugaz de um rosto, nas antigas fotos” (Benjamin). Isso acontece porque aquela foto pertence a alguém cujo ente querido ou objeto amoroso está ali retratado. Se a foto pertencesse a outra pessoa, o indivíduo retratado não teria nenhum valor de culto para quem a observasse ou, ao menos, o teria bastante diminuído e transformado. Seria, no máximo, um culto ao passado. Essa é a característica dos retratos, que estabelecem essa relação pessoal – ou este valor de culto – entre seu proprietário e o retratado.

“É a esse repertório propriamente fotográfico que 'Os noivos' parece evocar. Todas as citações propriamente pictóricas já destacadas não estão ali de modo a tornar o quadro reativo a um sentido temporal contemporâneo de si mesmo. Quer dizer, o quadro não se aliena da sua condição histórica, antes anota e comenta, através da pintura, sua própria superação técnica. Ele permite entrever uma tentativa que amplia o significado do gênero, seja no anonimato dos personagens, seja na iconografia negativa do fundo. “Os noivos” parece ser o retrato de todos os retratos, isto é, a representação de um mundo em que os significados repousam no sujeito, seja ele quem for.”



Fernanda Lopes Torres é pesquisadora e historiadora da arte. Graduada em Desenho Industrial pela ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) da UERJ, tem mestrado e doutorado em História Social da Cultura pela PUC-Rio. Atua hoje como pesquisadora de arte da Multirio (Empresa Municipal de Multimeios) e professora do Instituto de Artes da UERJ, tendo publicado artigos em revistas universitárias e na revista Novo Estudos do CEBRAP.
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Dois momentos da Antropofagia entre nós


Só interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. - Oswald de Andrade

Tarsila do Amaral, Abaporu (1928)
85 X 73 cm, colección Constantini, Buenos Aires

O retrato da estranha criatura com enormes pés fincados na terra e pequena cabeça melancolicamente apoiada em uma das mãos é talvez o mais conhecido trabalho da pintora Tarsila Amaral. Intitulada Abaporu (Aba = homem, poru = que come), a pintura teria levado a uma das mais originais formulações teóricas sobre a questão da dependência cultural no Brasil - a Antropofagia.


A experiência da pintura teria sido capaz de catalisar idéias que se encontravam dispersas - idéias relativas ao desejo de criação de uma arte brasileira própria a partir do contato com as diversas linguagens das vanguardas européias. Proposta utópica de processamento de um modelo europeu junto ao nosso primitivismo, a noção de antropofagia pode ser considerada fundamento de nosso modernismo – que tem seu marco simbólico na Semana de 22 e se manifesta na fase da pintura de Tarsila Amaral conhecida como Pau-Brasil, assim como no Manifesto Pau-Brasil , 1924, de Oswald de Andrade. Em 1928 a relação entre a (sofisticada) cultura européia e a (primitiva) cultura brasileira se destaca a partir da ênfase no primitivismo como arma crítica seletiva, com a imagem do selvagem que devora e assimila apenas o que interessa, destruindo todo o resto.

Na pintura de Tarsila, a devoração do pai totêmico – a cultura européia – para incorporar suas virtudes reforçando o próprio organismo – a cultura brasileira - será evidenciada por uma maior subjetividade adquirida com uma incorporação do Surrealismo, o que se fará sentir pela inclusão da mitologia brasileira. De posse do aprendizado moderno de redução formal e planificação do espaço pictórico, a artista mergulha na "materialidade cultural" brasileira ao criar, com formas arredondadas e cores emblemáticas um alegre universo "selvagem", que se liga ao mundo mágico das lendas indígenas e africanas.

A partir da experiência dessa pintura de tons fortes de amarelo, verde, azul, laranja e roxo, profundamente enraizado na cultura popular brasileira, Oswald é mobilizado a organizar o chamado Clube de Antropofagia, e veicular a Revista de Antropofagia, onde publica o Manifesto Antropófago. O texto fragmentado, repleto de frases de impacto, reelabora o conceito eurocêntrico e negativo de antropofagia como metáfora de um processo crítico de formação da cultura brasileira. Na visão positiva e inovadora de Andrade, exatamente nossa índole canibal permitiria, na esfera da cultura, a deglutição/apropriação crítica das idéias e modelos europeus para produzir algo genuinamente nacional, sem cair na antiga relação modelo/cópia, que dominou uma parcela da arte do período colonial e a arte brasileira acadêmica do século XIX e XX.

O pensamento de Karl Marx, a descoberta do inconsciente pela psicanálise e o estudo Totem e Tabu, de Sigmund Freud, a liberação do elemento primitivo no homem proposta por alguns escritores surrealistas como André Breton, o Manifeste Cannibale escrito por Francis Picabia em 1920,as questões em torno do selvagem discutidas pelos filósofos Jean-Jacques Rousseau e Michel de Montaigne. Inúmeras as influências teóricas identificadas no Manifesto, todas elas se aglutinam sob a rubrica do inédito conceito de antropofagia – que possui, porém, raízes na história brasileira, com Hans Staden (Duas viagens ao Brasil, 1557).



Contra todas as "catequeses", todos os importadores de consciência enlatada, o Padre Vieira, a suposta verdade dos povos missionários, Anchieta ou a corte de D. João VI, Oswald proclama a "realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituição e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama". Pois se é inevitável a assimilação das conquistas da civilização moderna, é preciso que o brasileiro se eleve à cultura "desde que conserve suas qualidades próprias. Assim, o pensamento antropofágico não recusa simplesmente a moderna civilização industrial, sendo capaz de distinguir seus aspectos positivos, eliminar o que não interessa e promover a “revolução Caraíba” e seu novo homem “bárbaro tecnicizado”. Oswald reconta de forma metafórica a história do Brasil a partir da oposição entre eventos históricos e símbolos míticos: Padre Vieira, Anchieta, a corte de D. João VI aparecem junto às figuras mitológicas de Jabuti, Guaraci, Jaci e da Cobra Grande - de algum modo, talvez possamos pensar, sugerindo uma visão historiográfica oposta ao histricismo eurocêntrico

A partir dos anos 1930, junto ao agravamento da situação econômica e social, com a crise do Café, o craque da Bolsa de Nova York em 1929, Getúlio no poder, e posteriormente a eclosão da Segunda Grande Guerra, a questão do "moderno" como tensão entre nacional e internacional toma outros rumos. Oswald então renega o "sarampão antropofágico" – espécie de doença infantil que atingira indiscriminadamente aqueles que não tinham recebido a vacina marxista -, voltando a ele somente em 1945, um ano depois de O caminho percorrido, como oposição crítica ao marxismo e interesse crescente pela filosofia.

A idéia de antropofagia, capaz de inverter a questão do colonizador e do colonizado como procedimento estético só é conscientemente retomada, em meados dos anos 1960, com a montagem da peça O Rei da Vela, pelo Teatro Oficina, e o movimento tropicalista de 1967-1968. Mais conhecido dentro da música popular brasileira – que possui maior penetração social em nosso país, até hoje - o tropicalismo é batizado a partir do Penetrável Tropicália de Hélio Oiticica, exposto em 1967 no MAM-Rio, na mostra Nova Objetividade Brasileira, onde são reunidas as mais significativas tendências dos nossos artistas plásticos do período. No texto de apresentação da mostra, Oiticica destaca um “novo estado da arte brasileira”, passível de confronto com as tendências mais atualizadas da arte contemporânea internacional. Logo de saída, Oiticica invoca Oswald de Andrade e o sentido de antropofagia como um elemento importante na tentativa de caracterização nacional. Ele reconhece a noção de Antropofagia como representante de uma “vontade construtiva”, característica nossa, que, partir do Movimento de 22, teria levado “Oswald de Andrade à conclusão do que seria nossa cultura antropofágica, ou seja, redução imediata de todas as influências externas a modelos nacionais. Isso não aconteceria não houvesse, latente na nossa maneira de apreender tais influências, algo de especial, característico nosso, que seria essa vontade construtiva geral”.

E enfatiza nossa especificidade: “somos um povo à procura de uma caracterização cultural, no que nos diferencia do europeu com seu peso cultural milenar e do americano do norte com suas solicitações superprodutivas (...) Aqui, subdesenvolvimento social significa culturalmente a procura de uma caracterização nacional,ou seja, nossa vontade construtiva. Não que isso aconteça necessariamente a povos subdesenvolvidos,mas seria um caso nosso, particular. A antropofagia seria a defesa que possuímos contra tal domínio exterior, e a principal arma criativa,essa vontade construtiva, o que não impediu de todo uma espécie de colonialismo cultural, que de modo objetivo queremos hoje abolir, absorvendo-o definitivamente numa superantropofagia. Por isto e para isto, surge a primeira necessidade da Nova Objetividade: procurar pelas características nossas, latentes e de certo modo em desenvolvimento, objetivar um estado criador geral, a que se chamaria de vanguarda brasileira numa solidificação cultural (...)”.

Nessa mostra Oiticica apresenta Tropicália, um ambiente em que se pode penetrar, surgido a partir de suas experiências com o samba, e a arquitetura “orgânica” das favelas cariocas, processadas através nos Parangolés. Cabe destacar: parangolés e penetráveis de Oiticica constituem trabalhos que rompem com as tradicionais categorias das belas-artes, pintura e escultura, estabelecendo nova relação entre espectador, aliás, agora participador, e obra. Os Parangolés constituíam espécies de capas que, como tais, deveriam ser vestidas, e posteriormente movimentadas por aqueles que as vestem. Os Penetráveis , por sua vez, formavam ambientes nos quais, como a palavra indica, se podia penetrar. O artista cria uma espécie de cenário tropical com plantas, araras, areia, pedrinhas (em entrevista de 67 ele declara que parecia “caminhar pelo cenário de Tropicália, estar dobrando pelas 'quebradas' do morro, orgânicas tal como a arquitetura fantástica das favelas (...) ou de estar pisando na terra outra vez”. Oiticica descreve: “Ao entrar no Penetrável principal, após passar por diversas experiências táctil-sensoriais, abertas ao participador, que cria aí o seu sentido imagético através delas, chega-se ao final do labirinto, escuro, onde um receptor de TV está em permanente funcionamento: é a imagem que devora então o participador, pois é ela mais ativa que o seu criar sensorial. Aliás, este Penetrável deu-me permanente sensação de estar sendo devorado... é a meu ver a obra mais antropofágica da arte brasileira”.


Oiticica, artista e pensador de seu próprio trabalho, reconhece Tropicália como “uma espécie de campo experimental com as imagens”. E que imagens são essas? As imagens típicas de país tropical. Segundo o crítico Carlos Zílio, “o cálculo implícito desse trabalho seria provocar a explosão do óbvio. Isto é, a ruptura com as tentativas de atualização do realismo da ideologia nacional e popular.” No centro da obra, uma TV, elemento importante na formação do olhar contemporâneo, aparelho que acaba por invadir todo o espaço com seu ruído incessante – exatamente como o faz nas cidades. Imagens tipicamente brasileiras das araras e pedrinhas dos jardins-florestas-tropicais se misturam/contaminam e são contaminadas pela TV que zumbe. Há uma regularidade, uma racionalidade estruturando todos esses elementos – o que é, porém, transpassado por um “riso irônico e contra-aculturativo que desconcerta seu transplante” (Zílio).



Fernanda Lopes Torres, historiadora da arte, graduada pela ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) da UERJ, mestre e doutora em História pela PUC-Rio, pesquisadora de arte da Multirio (Empresa Municipal de Multimeios) e professora do Instituto de Artes da UERJ, escreve às quintas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.
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